• Alex Catharino
  • 17 Março 2017


No centenário do embaixador Meira Penna, cabe refletir sobre um tema atual tão caro ao pensador: sua crítica à Teologia da Libertação.


(Publicado originalmente em http://sensoincomum.org)

No dia 14 de março de 1917, na cidade do Rio de Janeiro, nasceu José Osvaldo de Meira Penna, um dos mais importantes expoentes do liberalismo e do conservadorismo brasileiros no século XX, que, ainda vivo e morando em Brasília, completa hoje o seu centenário. Principalmente entre os anos de 1994 e de 2003, tive a imensa honra de conviver frequentemente com esse grande escritor e professor, por conta de meu envolvimento com o Instituto Liberal, tendo sido apresentado a ele por meu finado mentor Og Francisco Leme (1922-2004).

Em um momento em que muitos católicos se defrontam com diversas incertezas, por conta de certas ambiguidades no discurso e na postura do Papa Francisco, que, mesmo de modo involuntário, acabam fortalecendo os desvios propagados por adeptos da chamada Teologia da Libertação, relembrar algumas das análises de J. O. de Meira é um exercício propício para entender alguns dos motivos pelos quais tal doutrina foi severamente condenada tanto por João Paulo II quanto por Bento XVI. Antes de discutirmos essa questão, contudo, é necessário falarmos um pouco da biografia intelectual do autor homenageado.

Após ter obtido pela antiga Universidade do Brasil (UB), atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o título de Bacharel em Ciências Jurídicas, Meira Penna ingressou na carreira diplomática, no ano de 1938, por intermédio de concurso público para o Instituto Rio Branco. Como membro do corpo diplomático brasileiro ocupou diversos postos, entre 1940 e 1981, na China, na Turquia, na Suíça, na Nigéria, em Israel, na Noruega e na Islândia, no Peru e na Polônia. O diplomata fez cursos de especialização na Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos, e no Instituto C. G. Jung de Zurique, na Suíça, tendo cursado, também, a Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio de Janeiro. Atuou como professor da Universidade de Brasília (UnB) e como conferencista em diversas instituições no Brasil e no exterior. Além de ser membro da prestigiosa Mont Pèlerin Society, fundada por F. A. Hayek, envolveu-se com o trabalho do Instituto Liberal e de diversas outras instituições liberais ou conservadoras nacionais e estrangeiras. É autor de mais de vinte livros, muitos ainda encontrados com facilidade nas livrarias, bem como de centenas de artigos publicados em diferentes órgãos da grande imprensa entre as décadas de 1970 e 2000.

De acordo com o ilustre diplomata, estadista e pensador liberal Roberto Campos (1917-2001), em um dos ensaios da obra Antologia do Bom Senso (Topbooks, 1996), “Meira Penna se entrega à tarefa crespa, porém urgente, de desmistificar mitos” (p. 162). No livro Liberalismo e Justiça Social (IBRASA, 1995), o meu saudoso mentor Ubiratan Borges de Macedo (1937-2007) afirmou que “Meira Penna está muito atento aos problemas colocados pala inserção do catolicismo na economia da modernidade, além de preocupado com a fundação de uma ética social” (p. 128). Nesse contexto se insere uma importante crítica do diplomata brasileiro ao conteúdo ideológico da Teologia da Libertação, tema principal do presente artigo.

A crítica à Teologia da Libertação desenvolvida por Meira Penna encontra-se de forma sistemática nas obras O Evangelho segundo Marx (Convívio, 1982) e Opção Preferencial pela Riqueza, (Instituto Liberal, 1991). Avaliações dispersas acerca da temática foram apresentadas pelo autor, também, em outros livros, bem como em diversos artigos para jornais e revistas.

Tais julgamentos de Meira Penna ao conteúdo ideológico, eminentemente marxista, da Teologia da Libertação surgiram a partir de uma polêmica, iniciada em dezembro de 1979 com a publicação de uma série de artigos, editoriais e cartas dos leitores no Jornal do Brasil. A controvérsia girava em torno do conteúdo da Teologia da Libertação e das ideias de uma de suas figuras centrais, o então frei franciscano Leonardo Boff. Sobre este incidente inédito no Brasil, Meira Penna afirma no prefácio de O Evangelho segundo Marx:

“O que era uma surpresa – o fato da teologia, assunto geralmente rebarbativo, se tornar tema de debate jornalístico – melhor se explicaria pela tonalidade essencialmente política da aludida Teologia. A política é, de fato, a religião do nosso século, de maneira que é bem compreensível queiram alguns agitados clérigos revitalizar o Catolicismo e novamente encher as Igrejas pela introdução das paixões políticas nos seus ensinamentos. Assim, o que entrou em debate, no fundo, não era Teologia, nem “opção pelos pobres”, mas Marxismo – este notoriamente infiltrado nos estabelecimentos de ensino e, em particular, na PUC. Isso esclarece o porque do tom um tanto ou quanto emocional da polêmica, em que acabou se envolvendo o próprio Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro” (p. XI).

O pensador liberal demonstra em sua análise o fato da Teologia da Libertação, embora proclame e insista em possuir um caráter especificamente latino-americano de sua doutrina, em verdade, se sustenta claramente na obra de teólogos europeus protestantes e católicos. Um fator não percebido por muitos é que, em essência, a Teologia da Libertação é uma variedade indígena da “Teologia Política”, da “Teologia da Secularização”, da “Teologia da Revolução” e mesmo da “Teologia da Morte de Deus” ou da “Teologia da Violência”, que tem assoberbado os jovens pensadores mais afoitos da Igreja europeia. Ainda em O Evangelho segundo Marx, o embaixador Meira Penna destacou que duas correntes principais, ambas em seu julgamento

“das mais desastrosas que hão afetado a filosofia e, através dela, a ciência política ocidental, se manifestam tanto no método e no vocabulário, quanto no espírito da Teologia da Libertação: a corrente historicista do idealismo alemão, na linha de Hegel, e sua semântica abstrusa, suspeita e imanentizante; e do romantismo francês na linha de Rousseau” (p. 9).

No livro O Espírito do Capitalismo Democrático (Nórdica, 1985), um amigo de Meira Penna e meu, recentemente falecido, o teólogo norte-americano Michael Novak (1933-2017), constata que a Teologia da Libertação, em sua hostilidade aos ideais e instituições do capitalismo democrático, é claramente socialista na inspiração, no vocabulário e nos métodos de análise. Novak afirma que a Teologia da Libertação

“é especialmente socialista naquilo que é contra. Não há dúvida que de que a teologia da libertação é vaga e sonhadora. Nós a lemos em vão, em busca de uma afirmação crítica sobre os experimentos socialistas na Europa, dos quais ela pretende se distinguir. Os teólogos da libertação proclamam originalidade de pensamento, mas não o mostram. Praticamente em todos os aspectos suas ideias derivam de ideias socialistas europeias” (p. 342).

O ensinamento oficial do Magistério Romano, tal como expresso na carta encíclica Sollicitudo rei Socialis, promulgada, em 30 de dezembro de 1987, por São João Paulo II (1920-2005) ressalta que “a Igreja sabe bem que nenhuma realização temporal se identifica com o Reino de Deus, mas que todas as realizações não deixam de refletir e, em certo sentido, antecipar a glória do Reino que esperamos no fim da história, quando o Senhor retornar” (VII, #48). Adotando uma postura diametralmente oposta à ortodoxia do cristianismo, os teólogos da libertação adotam uma postura eminentemente utópica.

Sobre a temática, em O Evangelho segundo Marx, é destacada por Meira Penna a ocorrência entre a maioria dos defensores da Teologia da Libertação em adotar uma postura próxima ao “verdadeiro repúdio da escatologia cristã. O Reino não é mais esperado no ‘final dos tempos’”. Esta errônea postura teológica levas os cristãos a

“insistir na ‘dimensão terrena, sócio-política do presente histórico’ das promessas escatológicas. Sua realização não pode ser mais adiada para o fim apocalíptico da história, com referência a um futuro misterioso e imprevisível. A promessa do Reino tem que assistir a uma realização imediata. O intuito profético desarvorado que é o teólogo da Libertação vê a realização da promessa como mediação da resposta livre do homem, no decurso do atual momento histórico” (p. 51).

Em suas investigações na mesma obra, Meira Penna, tenta fazer uma análise psicológica do marxismo infiltrado na Teologia da Libertação latino-americana. Para atingir tal finalidade, recorreu ao conceito de “Ressentimento”, a partir do qual infere a premissa segundo a qual

“na teoria da ‘dependência’, assim como nos protestos contra uma alegada ‘opressão’ e ‘dominação’ que estaríamos sofrendo, por parte dos Estados Unidos e dos países industrializados em geral, podermos efetivamente descobrir motivações psicológicas de índole ressentida. Motivações idênticas contaminam a denúncia generalizada dos ‘ricos’ e bem-sucedidos. Uma apreciação psicológica do ressentimento é assim susceptível de contribuir para um melhor esclarecimento do tema que tanto nos preocupa” (p. 79).

Dando prosseguimento a esta análise psicológica da temática, aprofundou a questão do ressentimento como um elemento derivado da inveja e do impulso de vingança. Acerca deste mesmo tópico, Meira Penna continua:

“Quando o desejo de adquirir o bem do outro (digamos o desejo do subdesenvolvimento de locupletar-se com o poder, a riqueza, o bem-estar, a renda per capita e a tecnologia americana ou europeia) fracassa diante de nossa própria inferioridade constitucional, a consciência difusa da impotência representa o que a escola de Jung compreende como o “reconhecimento da própria sombra” – o lado negativo, malicioso e “sombrio” do complexo psíquico. A sombra é então projetada sobre o objeto, ao qual é atribuída toda a mazela que, sem querer, reconhecemos em nós próprios” (p. 79).

A carta encíclica Rerum Novarum, promulgada em 15 de maio de 1891, pelo pontífice Leão XIII (1810-193), ao tratar do problema da miséria admoestou:

“Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comum a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para os Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social” (#3).

No livro Opção Preferencial pela Riqueza, a questão foi revisitada por Meira Pena ao ressaltar que “a revolta contra os ricos, o ressentimento pela própria pobreza, a condenação da prosperidade do próximo denunciam a cobiça e a inveja no coração revoltado” (p. 157). Na mesma obra o autor constata que “a hipocrisia social sempre procurou esconder o caráter egoísta, agressivo, pecaminoso e imperfeito da alma humana, atingida segundo pretendem as Escrituras, por uma espécie de Pecado Original” (p. 12). Continuando a reflexão, segue com a seguinte afirmativa:

“O homem acreditou que essas suas falhas não existem, ou são corrigíveis numa sociedade que se diz cristã e foi educada na ideia do amor, do altruísmo, da compaixão e da fraternidade. O mal do egoísmo, da agressividade, da inveja, da crueldade, da luxúria e da mentira certamente persiste, na sombra – mas pode ser perdoado pelo sacerdote, no confessionário, com um padre-nosso e três ave-marias e a promessas envergonhadas de não repetir… Uma solução melhor encontrada, quando começou a definhar a fé religiosa, consubstanciou o Mal romântico, perversa enfermidade coletiva que se apossou da mente ocidental a partir de fins do século XVIII. O Mal romântico procura encontrar álibis para a brutalidade da condição humana. Ele projeta nossa consciência de culpa sobre os famosos ‘cabides de sombra’ – que sempre são os de um outro no contexto do Mal romântico. Surgiu o cristianismo ersatz que é o Socialismo. O homem é basicamente bom, quem o corrompe é a sociedade capitalista. A culpa é das ‘estruturas’ sociais. Nelas é que se penduram os cabides. Não há pecado individual, há pecado ‘social’. Basta manipular adequadamente as estruturas e se alcançará a ‘justiça social’. O papel salvífico da Igreja deve ser entregue ao Estado, com a assistência de figuras messiânicas, carismáticas e soteriológicas, proliferando em nosso século como cogumelos em floresta úmida. O socialismo é o altruísmo imposto pela polícia” (p. 12-13).

A postura de Meira Penna, contraria a ideia absurda da perversa enfermidade do mal romântico, proposta por Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), segundo a qual “o homem é basicamente bom, quem o corrompe é a sociedade”. Tal como expresso por Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho Segundo São Mateus (15,10-20) e no Evangelho Segundo São Marcos (7,14-23), as coisas que vem de fora não podem tornar o homem impuro, mas apenas aquilo que sai de dentro dele. Logo, toda a maldade é fruto do coração do próprio homem.

Seguindo este raciocínio podemos concordar com o grande pensador liberal quando defende, em O Evangelho segundo Marx, que há uma dose de farisaísmo no posicionamento dos teólogos da libertação, ressaltando, deste modo, que toda a motivação da tese deste segmento da Igreja é essencialmente e fundamentalmente farisaica. O autor continua a análise afirmando que:

“O fariseu se define como aquele que se recusa a ver as suas próprias faltas, os seus próprios pecados – e projeta sobre o outro, o estranho, o mal que inconscientemente reconhece em si mesmo. Na época de Cristo, os escribas e fariseus denunciavam a corrupção dos gregos, a dominação dos romanos, a impureza dos samaritanos, a torpeza dos publicanos, coletores de impostos para César. O que não podiam era reconhecer a sua própria condição, que Cristo descrevia como a de sepulcros caiado de branco. A projeção da sombra de sua culpa sobre o estranho, o estrangeiro, o outro constitui a característica psicológica do fariseu” (p. 29).

Esta é a principal razão pela qual Meira Penna considera profundamente farisaico e anticristão todo o arrazoado da Teologia da Libertação. Partindo desta inferência, conclui, ainda na obra supracitada, que:

“Seu efeito prático – ao reconhecer as injustiças muito reais existentes em nosso meio – é o de pôr a culpa para cima dos americanos, o que nos exime naturalmente de procurá-la em nós mesmos, de examinarmos em nossa própria sociedade os erros que cometemos, as injustiças que deixamos que perdurem, os nossos pecados coletivos, as nossas falhas e inadequado talento de organização coletiva – em que sentido somos responsáveis pela pobreza e abandono das massas sertanejas porque nunca lhes fornecemos escolas suficientes, nunca tratamos suas endemias rurais, nunca estruturamos a nossa própria sociedade de maneira a permitir uma distribuição mais equitativa da renda nacional. O exame de consciência coletiva deve estender-se a um exame de consciência individual” (p. 29).

Mais adiante em O Evangelho segundo Marx, Meira Penna alerta que a verdadeira atitude cristã é:

“Aquela que não inveja o sucesso ou a riqueza do próximo, mas vira-se com compaixão para aquele que fracassou, para o doente e o pobre. Quando São Francisco proclama que é melhor dar do que receber está repetindo as próprias palavras do Senhor, registrada nos Atos dos Apóstolos (20,35). Essa indiferença pelas riquezas materiais, preocupação com as espirituais e sentimento de responsabilidade pela pobreza, sofrimento e insucesso alheio marcam o supremo comportamento do cristão autêntico” (p. 101).

Um cristão autêntico não pode ser, de modo algum, um socialista. O já citado papa Leão XIII ressaltou na Rerum Novarum que “substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os laços da família” (#8). Dando continuidade aos motivos pelos quais nenhum cristão, em especial os católicos, pode aceitar o socialismo, o Romano Pontífice alertou que:

“Além da injustiça do seu sistema, veem-se bem todas as suas funestas consequências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria. Por tudo que nós acabamos de dizer, compreende-se que a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles mesmos que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer para todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo, e a inviolabilidade da propriedade particular” (#9).

Tal passagem de Leão XIII foi endossada na carta encíclica Centesimus Annus, promulgada no dia 1º de maio de 1991, por João Paulo II, quando afirma que “não se poderia indicar melhor os males derivados da instauração deste tipo de socialismo como sistema de Estado: aquele tomaria o nome de ‘socialismo real’” (#12).

Além de acentuar a diferença entre a verdadeira atitude de indiferença pelas riquezas materiais, pregada pela tradição cristianismo, da postura de negação das riquezas, tal como propostas por àqueles que foram de alguma maneira influenciados pela Teologia da Libertação, incluindo alguns segmentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Meira Penna, também, destaca que não há contradições entre o ideal cristão e a prática de uma economia de mercado. Sobre a temática, apresenta uma correta visão seguinte passagem do livro Opção Preferencial pela Riqueza:

“Na sociedade universal moderna, composta de centenas de milhões, ou bilhões de indivíduos, é o relacionamento comercial, à base de dinheiro que melhor funciona. A ele chamamos capitalismo. O capitalismo é condenado como pecaminoso pelos clérigos da Esquerdigreja e pela intelectuária botocuda, entre os retomicturentes reacionários, porque parece exaltar o egoísmo do homem através do nexus monetário. A realidade é que tanto o capitalismo como o socialismo são meros instrumentos do homem. São meios. Meios para o alcance de seus fins materiais, sistemas moralmente neutros, despersonalizados, de relacionamento econômico entre grandes massas, em contatos que não afetam, de modo algum, nem o substrato fundamentalmente egoísta da humanidade, nem a presença de uma forte dose de simpatia em toda convivência social harmônica” (p. 41).

Tais vantagens da economia de mercado na preservação da liberdade e da dignidade da pessoa humana, tão enfatizadas por Meira Penna, está de acordo com os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja, tal como apregoada por João Paulo II. Em um trecho da Centesimus Annus o Santo Padre afirmou que “tanto a nível de cada Nação, como no das relações internacionais, o livre mercado parece ser o instrumento mais eficaz para dinamizar os recursos e corresponder eficazmente às necessidades” (#34).

A crítica de Meira Penna não se limitou apenas ao caráter teórico da Teologia da Libertação, mas, também, às consequências da difusão desta na sociedade brasileira. O lúcido pensador liberal constatou, na coletânea Decência Já (Nórdica, 1992), que por causa desta infiltração marxista “a Igreja revelou-se irremediavelmente dividida entre romanos e seguidores do bofe messiânico Dom Leonardo Mártir” (p. 43). Analisando tal problemática, no livro O Dinossauro: Uma Pesquisa sobre o Estado, o Patrimonialismo Selvagem e a Nova Classe de Burocratas e Intelectuais, (T. A. Queiroz, 1988), ressaltou que:

“A introdução das Comunidades Eclesiais de Base; o aparecimento da CNBB como órgão de mobilização política na Igreja brasileira; as preocupações sociais oriundas do Concílio Vaticano II; a tradição tridentina de reforço do poder secular que, após o advento das famosas encíclicas “sociais”, tende a colocar-se numa posição social-estatizante e antiliberal; a criação do PT com o apoio ostensivo da ala “progressista” e a agitação demagógica de clérigos inquietos do tipo Helder Câmara, frei Beto, Leonardo Boff, Evaristo Ars e Pedro Casaldáliga, sugerem a possibilidade de muitos padres estarem cogitando da eventualidade de substituírem os militares como nova elite, os novos mentores, os novos Aiatolás da República. A CNBB, órgão espúrio na organização milenar da Igreja, permite a um grupo de militantes esquerdistas contornar o obstáculo levantado pelo relacionamento tradicional entre o papa e os bispos. Essa entidade comporta hoje, francamente, como um grupo de pressão político, para não dizer subversivo. O fenômeno ressuscitaria o papel que desempenharam os jesuítas nos dois primeiros séculos de nossa história” (p. 311).

Esta análise via de encontro às observações do jornalista e sociólogo francês Guy Sorman acerca da Igreja Católica no Brasil. No livro A Nova Riqueza das Nações (Nórdica, 1988), o referido autor destacou que o catolicismo brasileiro “parece ter deslizado do divino para o temporal. Suas profecias transformaram-se em projeto político meio-socialista meio-cristão, que veio a se tornar o discurso frequente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, dos sindicatos operários e dos partidos de esquerda” (p. 58).

Meira Penna em suas analises acerca da sociedade brasileira ressalta que a nacionalidade esta sob a inspiração dos clérigos da Teologia da Libertação, que satiricamente denominou de Teratologia da Opressão (Teratologia = Estudo das Monstruosidades). No livro O Dinossauro, o pensador liberal admirou-se com o fato de “nem Leonardo Boff, nem qualquer desses bispos alucinados não tenham descoberto a extraordinária avenida das urnas para galgar o poder messiânico que ambicionam. Sua ideologia totalitária nacional-socialista já está aí, prontinha: a chamada Teologia da Libertação. Com a vantagem sobre as outras ideologias leigas de poder imediatamente utilizar o imenso potencial místico de nosso povo” (p. 312).

Na coletânea Decência Já, constatou que nosso país é assolado por três males muito graves: “a patifaria, a burrice e a ideologia, de inspiração esquerdista, que se traduz em ímpetos nacional-socialistas, xenófobos, estatizantes e terceiro-mundistas” (p. 43). Sendo estes três males encontrados nestes alucinados clérigos de inspiração marxista que transformaram a “opção preferencial pelos pobres” em uma “opção preferencial pela pobreza”, um dos fatores que mantêm o Brasil no patrimonialismo selvagem.

A posição de Meira Penna em relação ao conteúdo ideológico da Teologia da Libertação pode ser ilustrada por sua afirmação, no livro O espírito das Revoluções: Da Revolução Gloriosa à Revolução Liberal, (Faculdade da Cidade, 1997), de acordo com a qual “a ‘opção preferencial pelos pobres’ serve a muito intelectual remediado como instrumento de opção preferencial pelo próprio enriquecimento e a muito clérigo da Igreja católica para promover-se em prestígio nos cenáculos da CNB do B…” (p. 304).

No período em que a CNBB promove a ideológica Campanha da Fraternidade, que no ano de 2017 apresenta o discurso verde do socialismo ecológico, no lugar de incentivar de modo mais profundo as importantes meditações do Tempo da Quaresma, reler os escritos do grande pensador liberal acerca da Teologia da Libertação é um alerta para os riscos da infiltração ideológica na fé católica. Poucos escritores foram tão lúcidos em descrever tais mazelas quanto José Osvaldo de Meira Penna, cuja a vida e a obra merece ser celebrada, principalmente, no dia em que este campeão na defesa da liberdade completa o centésimo aniversário.
 

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  • Diego Casagrande
  • 16 Março 2017

(Publicado originalmente no Jornal Metro)

 Alguém por favor pode me explicar por que tanta gente quer ir morar legal ou ilegalmente nos EUA se lá não tem CLT e nem Justiça do Trabalho? Se lá não tem 13° e tampouco licença maternidade remunerada? Como suportar um país onde decisões sobre férias, ausências por doença ou feriados nacionais são negociadas caso a caso entre empregador e empregado? Por que tantas pessoas se arriscam a morrer no deserto, na fronteira árida do México e nas mãos dos coiotes, se lá não tem SUS e não tem INSS? Se naquele lugar os trabalhadores precisam ter seguro de saúde e poupar para uma emergência? Quero compreender como podem os Estados Unidos ser a preferência da maioria dos imigrantes do planeta se lá não existe faculdade de graça, sendo que as famílias poupam uma vida inteira para ver o sonho do diploma superior realizado?

Me ajudem a entender como pode tantos brasileiros quererem se mudar para um país onde o armamento é liberado em quase todo o lugar e onde as pessoas podem ter até fuzis em casa para se proteger? Como se sentir seguro em uma nação que não tem Estatuto do Desarmamento? Alguém me explica como pode tanta gente querer se mudar para o país onde quem bebe e dirige passa a noite na cadeia e se for reincidente pode ficar longos meses ou até anos preso? Onde corruptos quebram a cara? Me expliquem qual a lógica de alguém sair de um país que não tem prisão perpétua e nem pena de morte e querer morar em outro, no caso os Estados Unidos, onde existe tudo isso e até castração química para estupradores e pedófilos? Como morar em um território onde menores de 18 anos respondem como adultos se cometerem crimes hediondos? Me digam como é possível alguém querer viver em um local onde delegados, juízes e promotores são eleitos pela comunidade? Como morar em um país onde não existe estabilidade no emprego para os funcionários públicos? Onde qualquer um que trabalhe em uma prefeitura, no governo de um estado ou mesmo no governo federal pode ser demitido por conveniência ou mesmo razões estratégicas dos governantes?

Parece, mas não é tão difícil assim compreender por que tanta gente do mundo todo quer se mudar para os Estados Unidos. Lá existem duas palavrinhas mágicas que devem ser seguidas por todos: "liberdade" e "responsabilidade". Entendeu?

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  • Adolfo Sachsida
  • 13 Março 2017

(Pubicado originalmente em institutoliberal.org.br)

Começo esse artigo com uma pergunta bem simples: o que é pior um ladrão que rouba seu dinheiro para enriquecer ou um ladrão que rouba seu dinheiro para destruir a democracia?

Note que em ambos os casos você foi roubado. É fundamental não se esquecer disso. Contudo, no primeiro caso o ladrão usou seu dinheiro para satisfazer a si mesmo e a sua família. Já no segundo caso o ladrão usou seu dinheiro para comprar apoio político e, por meio desse roubo, se perpetuar no poder.

Por algum motivo absurdo vários políticos tem defendido que roubar para ficar rico é pior do que roubar para destruir a ordem democrática. Óbvio que qualquer pessoa de bom senso sabe que o correto é o contrário: roubar para destruir a democracia é muito pior do que roubar para enriquecer.

Quando um bandido te rouba para enriquecer você perdeu seu dinheiro. Quando um bandido te rouba para angariar apoio político você também perdeu seu dinheiro, mas agora corre o risco de perder também a democracia. Ora quando um bandido rouba seu dinheiro para angariar apoio político esse bandido está subvertendo a ordem democrática, está tentando obter um apoio político por meios ilegais, de maneira ilícita tenta chegar ou permanecer no poder. Resta evidente que quem assim o procede atenta contra a ordem democrática (além de roubar seu dinheiro do mesmo jeito).

Quando políticos tentam nos convencer que roubar para ajudar o partido (caixa 2 de campanha) não é tão ruim quanto roubar para enriquecimento pessoal, eles parecem acreditar que roubar para ajudar o partido a subverter a ordem democrática é um crime pequeno e inofensivo. Errado! Roubar é sempre errado, mas o ladrão que rouba para perverter a democracia é certamente muito pior do que o ladrão que apenas se enriquece com o roubo.

Vi alguns políticos dizendo que devemos separar o joio do trigo. Para eles roubar em detrimento da democracia é menos grave do que roubar para enriquecimento pessoal. Muito triste ver líderes políticos de expressão nacional defenderem esse atentado contra nossa ordem democrática.

Fica aqui o recado: pior do que ser ladrão é ser ladrão e golpista!

Para finalizar, preciso dizer que meu querido amigo Roberto Ellery escreveu algo parecido em seu Facebook. Certamente outros já alertaram sobre isso também, então não estou dizendo nenhuma novidade. Mas achei importante deixar o registro.
 

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  • Jenifer Castilho
  • 12 Março 2017

 

Primeiramente, o que significa "idiota útil"? Como a própria expressão diz, é alguém que é idiota (ou até mesmo inocente), porém é útil para alguma causa.

Quem usava essa expressão era um líder da esquerda chamado Lênin e se dirigia à manipulação ideológica causada pela doutrina socialista. Lênin contava com um grupo de propagandistas, pessoas normais, que davam apoio ao movimento socialista achando que estavam lutando por um mundo melhor. Acontece que quando não fossem mais úteis seriam mortos, exilados ou presos.

Um exemplo de idiota útil nos dias de hoje é um famoso deputado gay que se vestiu e homenageou Che Guevara. Será que ele sabe que Che apoiou os campos de concentração de Castro para os homossexuais? Campos que abrigavam todos aqueles que não se encaixavam na ideia do "homem novo". Gays, portadores de HIV, católicos, alcoólatras, todos eram mandados para o campo de concentração.

Houve uma ocasião também em que Che Guevara viajou para Argélia e visitou a embaixada cubana local, ao olhar os livros da estante se deparou com o Teatro Completo de Virgilio Piñera e disparou: "Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada?" E atirou o livro pela parede. (INFANTE, 1996, p.341)

Outro exemplo de idiota útil atual são os negros que defendem com unhas e dentes o famoso revolucionário Che Guevara, o mesmo autor da frase: "O negro indolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão, ao passo que o europeu tem uma tradição de trabalho e de economia que o persegue até estas paragens da América e o leva a progredir". Parece que Che não era politicamente correto, não é mesmo?

Quem nunca viu uma pessoa com uma camisa com o rosto de Che Guevara estampado nela? Se você perguntar ao indivíduo da camisa sobre esse homem histórico, ele provavelmente te responderá o que leu nos livros do MEC, que Che foi um famoso revolucionário socialista, argentino, defensor dos pobres e oprimidos.

O idiota útil não mencionará que, quando a revolução triunfou, Che ficou encarregado de uma prisão em Cuba chamada La Cabaña, na qual mandou fuzilar mais de quatrocentos cubanos. Noventa por cento deles eram presos de consciência, ou seja, simplesmente discordavam do sistema defendido por Che. Isso está historicamente documentado, inclusive na Argentina.

Che Guevara foi um assassino a sangue frio que colocava no paredão para ser fuzilados todos os que discordavam de seus ideais. Ironicamente, ele é o herói da esquerda brasileira, aquela que prega tanto contra a pena de morte e ao mesmo tempo defende o aborto. Vai entender!

Mas por que o idiota útil ao ser confrontado não te contará essas informações tão importantes? Simples, ele não as conhece! Ele só sabe o que a mídia diz e o que o livro do MEC afirma. Mas para não ficar apenas nas minhas palavras, coloco abaixo frases célebres do herói dos idiotas úteis:


1. "Fuzilamentos? Sim, fuzilamos e continuaremos fuzilando sempre que necessário. Nossa luta é uma luta [dedicada] à morte."

2. "O negro indolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão, ao passo que o europeu tem uma tradição de trabalho e de economia que o persegue até estas paragens da América e o leva a progredir."

3. "Meus amigos só são amigos quando eles pensam ideologicamente como eu."

4. "O ódio como fator de luta. O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm que ser assim."

5. "Há que levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, aos seus lugares de diversão; fazê-la total. Há que impedir-lhe de ter um minuto de tranquilidade, um minuto de sossego... atacá-lo onde quer que se encontre; fazê-lo se sentir uma fera acossada por cada lugar que transite."


6. "Asseguro a vocês que se [Jesus] Cristo cruzasse meu caminho eu faria o mesmo que Nietzsche: não hesitaria em esmagá-lo como um verme."

7. "Os jovens devem aprender a pensar e agir em massa. É criminoso pensar como indivíduos."

8. "Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada?"

Pois é, essas frases não foram ditas por Jair Bolsonaro, por Hitler, por Osama Bin Landen, por Brilhante Ustra ou por Donald Trump. Foram ditas por Che Guevara.

Antes de você criticar Jair Bolsonaro por ter saudado o Coronel Brilhante Ustra (aquele que você nem sabe quem foi), deixe sua hipocrisia de lado e jogue fora sua camisa do assassino Che Guevara. E antes de querer lutar por um mundo melhor, arrume sua própria cama.

É preciso ler os livros que Che escreveu e não o que se escreve sobre ele.

FONTES:
1) Discurso de Che Guevara na ONU em 1964; 2) "Diario de Motocicleta – Notas de Viaje Por América Latina", Che Guevara; 3) "Mi hijo el Che", Ernesto Guevara Lynch; 4) Mensagem de Che à "Organización de Solidaridad con los Pueblos de Asia, Africa y América latina", Abril de 1967; 5) Mensagem de Che "aos Povos do Mundo Através da Tricontinental", 19676) "Che – El argentino que quiso cambiar el mundo", Pacho O'Donnell;7) Diario de la Sierra Maestra (citação em "Hijos del retrogresismo", Fundación para el Progreso)8) "Mea culpa", Guillermo Cabrera Infante.
Comentário do blog: recomendo também esse meu vídeo sobre essa figura asquerosa, esse porco assassino que é idolatrado pelos idiotas úteis de esquerda:

Ver link : https://www.youtube.com/87 3106a4-c6cf-487f-b085-f8ebf367 0775
 

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  • Paulo Antônio Briguet
  • 12 Março 2017


(Publicado originalmente na Gazeta do Povo e no Diário de Londrina)

No dia 5 de março de 1953, morria Josef Stalin. O ditador soviético sofreu um derrame na sua casa de campo, mas só foi atendido com 12 horas de atraso. Entre os assessores e seguranças, ninguém ousou chamar um médico sem a anuência do líder (até porque os últimos médicos a atendê-lo estavam presos e sendo torturados, sob denúncia de conspiração).

Quando, enfim, chamou-se uma equipe clínica, os médicos tremiam ao examinar o tirano semiconsciente. Era tarde demais. Logo Stalin deixou o mundo para entrar na história, aos 73 anos. Roubara antes 20 milhões de vidas.
Nos funerais de Stalin, houve choro e ranger de dentes. Enquanto Béria, Kruschev, Malenkov, Kaganovich e outros iniciavam uma luta de morte pela sucessão no Estado, milhares de súditos soviéticos acotovelaram-se para dar adeus ao líder. Houve pânico e pisoteio. O corpo embalsamado de Stalin ficaria exposto no Mausoléu de Lenin por alguns anos.
Numa aula magistral, o filósofo Olavo de Carvalho falou certa vez sobre a ideia de conversão. Segundo ele, a diferença entre a vida e a morte encontra-se na dimensão proporcionalmente ocupada pelo espírito. Em vida, o espírito é um ponto isolado entre sensações, desejos, temores, enganos, lembranças, impulsos. Depois da morte, a equação se inverte: o mundo material torna-se uma ilha perdida no mar do espírito.

Não nos é concedido o direito de especular sobre a salvação ou perdição de um ser humano; esse é um mistério que pertence a Deus. Mas podemos imaginar que a conversão de um ditador pela morte seja, no mínimo, uma experiência traumática. Ao homem que mantém um grande poder sobre o mundo material certamente não agradará ser reduzido a um pontinho na dimensão do espírito. As multidões podem chorar à vontade: não adianta. O Guia Genial dos Povos está morto.

A doença e a morte não são as únicas semelhanças entre um ditador e seus súditos. Morre a pessoa do ditador, mas não morre o ditador dentro das pessoas. Os seguidores continuam a pensar e agir conforme os esquemas mentais do líder. Querem calar ou prender quem pensa diferente; veneram o Estado; defendem a censura (ou “controle público da mídia”); exigem respeito absoluto aos símbolos pátrios; pretendem dar lições de cidadania ou educação moral e cívica; confundem crítica ao governo com ofensa ao país; identificam opositores como “inimigos do povo”.

Hugo Chávez morreu no dia 5 de março de 2013, exatamente 60 anos depois de Josef Stalin. São líderes diferentes, sem dúvida. Mas ambos foram pranteados por multidões e tiveram os corpos embalsamados. Pessoalmente, não acredito em coincidências; acho que Deus estava querendo passar uma mensagem com a repetição de datas e cenas. Talvez Ele esteja mostrando que algumas coisas permanecem iguais.
 

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  • Benê Barbosa
  • 11 Março 2017

 


Tempos atrás Reinaldo Azevedo se posicionou, em seu programa Os Pingos nos Is da Rádio Jovem Pan, contra a revisão e modificações no chamado Estatuto do Desarmamento. Seu posicionamento ocorreu depois que o MBL, Movimento Brasil Livre, de quem Reinaldo foi fã até pouco tempo atrás, colocou a revogação do malfadado estatuto como uma das pautas das manifestações do próximo dia 26. Na época cheguei até a rascunhar um texto, mas o argumento do articulista da Veja era tão pífio e surrado que resolvi deixar para lá.

Acontece que para a infelicidade – dele, não a nossa! – ele resolveu voltar ao assunto e se aprofundar, ou melhor, se afundar de vez. Iniciou sua fala reafirmando que é contra modificações na lei atual e, na sequência, com a sua notória megalomania, afirmou que foi o primeiro e mais importante jornalista a se posicionar pela não proibição da venda de armas no referendo de 2005. Acontece que ele não foi nem o primeiro, muito menos o mais importante! Aliás, tive que vasculhar a Internet atrás de um tal “debate” que ele disse ter participado no jornal Estadão, “debate” que Bruno Paes Manso chama de bate-papo com o Coronel José Vicente. Reinaldo deu sorte devido ao seu oponente, pois o coronel é fraquíssimo no assunto. Se tivesse pego pela frente o Denis Mizne, por exemplo, seria destroçado. O fato é que o posicionamento de Reinando de Azevedo foi tão insignificante que não me lembro de nada durante toda a campanha da qual participei e até mesmo antes do referendo estar oficializado. O posicionamento de Diogo Mainardi teve repercussão. O posicionamento de Diego Casagrande foi importante. A capa da Veja foi importante embora, posteriormente, ela tenha mudado de lado(1). O posicionamento de Jô Soares foi importante. Desculpe, mas o de Reinaldo Azevedo foi praticamente irrelevante e ele pode ter o chilique que for que não mudará esse fato.

Foquemos agora em dados e fatos! Maldito fatos! Azevedo afirma, ao criticar uma fala de Onyx Lorenzoni, que desarmamento não está vinculado a governos totalitários e cita a Venezuela como exemplo! Não, eu não estou brincando. É um ignorante em história ou mente descaradamente. O jornalista, ao que parece, não lê nem mesmo a revista que o abriga e paga seu salário, a qual, no dia 19 de dezembro de 2011, publicou a seguinte matéria: Desarmamento une chavistas e oposição na Venezuela(2). Em 30 de janeiro de 2012, a ONG Viva Rio publicou em seu site: “Viva Rio participa de desarmamento na Venezuela”(3). Essa ONG é uma das responsáveis pela criação do Estatuto do Desarmamento no Brasil e foi para Venezuela criar uma legislação semelhante pelas mãos “democráticas” de Hugo Chávez. Recentemente, em 2014, já sob o jugo do ditador Maduro, o país lançou-se em uma campanha de desarmamento “voluntário” da população venezuelana(4).

Não parou por ai! Reinaldo afundou mais ainda no assunto e usou o Japão, a Alemanha e a Suécia como exemplos de países desarmamentistas que não possuem estados totalitários. Japão é o lugar comum dos desarmamentistas sem argumentos e eu já desnudei essa mentira no artigo “Japão: desarmamento, opressão, dominação e a incapacidade de defesa de uma nação”(5), no qual mostro que hoje o Japão não tem um governo totalitário, mas que o desarmamento e a manutenção dessa política ocorreram por mãos de governantes totalitários! Que tal um pouquinho de história, senhor “quatro empregos”? Ah! E nem venha com a história para boi dormir que essa política desarmamentista é responsável pela baixa criminalidade naquele país, será apenas mais uma mentira que já citei no artigo “Atenção BBC, Globo e Folha: Desarmamento não é responsável pela baixa criminalidade no Japão, mas vocês sabem muito bem disso!”(6).

E aí? Vamos afundar mais? Vamos! Suécia e Alemanha embora tenham leis mais restritivas que os EUA, por exemplo, são uns dos países mais armados do mundo! Na Suécia há quase 2 milhões de armas, em especial fuzis e espingardas, nas mãos de civis para uma população de menos de 10 milhões de habitantes. De acordo com a Small Arms Survey (uma organização francamente favorável ao desarmamento) o tranquilo país é o 10º mais armado do mundo(7). A Alemanha tem aproximadamente 26 milhões de armas em circulação e figura entre os 20 mais armados do planeta. Reinaldo desconhece ou esconde que a política desarmamentista alemã floresceu pelas mãos do “democrata” Adolf Hitler, que utilizou e ampliou a legislação criada na República de Weimar para massacrar seus oponentes. Fica a dica do livro “Gun Control in the Third Reich: Disarming the Jews and 'Enemies of the State”, autoria de Stephen P. Halbrook(8).

Por último, mas não menos importante, a grande mentira ou ignorância: Mais armas significam mais morte e ponto final, decretou o Rei! Neste ponto a preguiça me toma. Quem em sã consciência pode ainda afirmar isso? Até mesmo a ONU em seu relatório “2011 Global Study on Homicide” (9 e 10), realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), entendeu que não há relação causal entre armas e mortes. Se isso fosse verdade, como se explicaria o fato do Uruguai, o 9º país mais armado do mundo (7) ter a segunda menor taxa de homicídios da América do Sul? Nos EUA onde milhões de armas são vendidas anualmente, os homicídios estão em queda há duas décadas(11)!

O jornalista ainda fala em aumento de mortes acidentais e mostra mais uma vez o apelo ao simplismo e ao simplório, pois nem sempre isso se reflete em uma verdade inexorável. Mais uma vez os EUA é a prova disso, uma vez que desde 1981 o número envolvendo acidentes com armas desabou, saindo de quase 2 mil casos para pouco mais de 500(12). Ao que se deve isso? À restrição é que não é! Nunca se vendeu tantas armas lá quanto se vendeu desde a década de 90. De 1990 até os dias atuais foram comercializadas mais de 170 milhões de novas armas em solo americano.

Legítima defesa com armas é exceção, afirma aquele que tem “40 milhões de ouvintes”. É mais uma afirmação falsa ou confirmativa da ignorância do articulista. Uma das únicas pesquisas comprovadamente sérias a esse respeito foi realizada pela equipe do Dr. Gary Kleck, criminologista da Universidade Estadual da Flórida, que descobriu que armas são usadas em legítima defesa aproximadamente 2,5 milhões de vezes por ano nos EUA. Essa e outras conclusões estão no livro “Armed Resistance to Crime: The Prevalence and Nature of Self-Defense with a Gun”(13).

O que Reinaldo faz é afirmar que os estudos de John Lott, Gary A. Mauser, Joyce Lee Malcolm, Gary Kleck (estudos inclusive aceitos pela ONU), Thomas Sowell e outros tantos não passam de falácias… Tenho certeza de que ele pode comprovar onde estão as tais falácias em todos os livros e estudos desse pessoalzinho aí. Faça o trabalho que todos os desarmamentistas do mundo não conseguiram fazer.

E já encerrando, a pior MENTIRA de todas, a lei não impede ninguém de adquirir legalmente armas no país, bastando atender à legislação vigente. Não vou nem me prolongar nesse ponto para falar sobre uma lei que recebeu o nome de Estatuto do DESARMAMENTO! Aquele que um dia foi chamado de Tio Rei agora parece se contentar com a posição de Bobo da Corte da esquerda Fabiana. Restam, então, duas opções: assumir sua ignorância sobre o assunto ou sua desonestidade intelectual, mas sei que teremos apenas, e no máximo, mais um chilique, o apontamento de uma vírgula fora do lugar ou o infame “vá ler Machado de Assis”!

1 - http://mvb.org.br/veja.php

2 - http://veja.abril.com.br/mundo/desarmamento-une-chavistas-e-oposicao-na-venezuela/

3 – http://vivario.org.br/viva-rio-participa-de-desarmamento-na-venezuela/

4- http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/09/venezuela-lanca-plano-nacional-para-desarmamento-de-civis.html

5 – http://www.cadaminuto.com.br/noticia/294802/2016/11/01/japao-desarmamento-opressao-dominacao-e-a-incapacidade-de-defesa-de-uma-nacao

6- http://www.cadaminuto.com.br/noticia/297722/2017/01/09/atencao-bbc-globo-e-folha-desarmamento-nao-e-responsavel-pela-baixa-criminalidade-no-japao-mas-voces-sabem-muito-bem-disso

 

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