(Publicado originalmente na Folha de São Paulo)
A lei exige que a prestação de contas de campanha eleitoral dos candidatos seja feita de maneira individual e separada, ainda que integrante de uma coligação partidária.
São contas distintas e independentes, o que possibilita a identificação da origem e do destino de todos os recursos captados para financiar a campanha. Cada candidato é individualmente responsável pela arrecadação dos recursos e discriminação dos gastos realizados.
Ora, se a lei obriga que a prestação de contas dos candidatos seja feita em separado, como pode a condenação ser em conjunto? Tal raciocínio contraria frontalmente a lógica cartesiana.
O Tribunal Superior Eleitoral no âmbito estadual e municipal tem aplicado o princípio da indivisibilidade da chapa, mas com abrandamentos. Em face da constatação de que o vice não cometeu nenhuma ilegalidade, a despeito de cassar a chapa deixa-se de aplicar a pena da inelegibilidade. É o que ocorre com Dilma Rousseff e Michel Temer, situação em que restou comprovado que o vice não cometeu qualquer ilícito.
Todavia, não parece coerente que o TSE reconheça a inexistência de culpa do vice-presidente, deixando de aplicar a inelegibilidade, mas derrube a chapa e casse o seu mandato.
A indivisibilidade da chapa, como de resto qualquer princípio, não pode ser aplicada de forma absoluta, sob pena de violar outros princípios constitucionalmente assegurados, como o da personalidade da pena, da segurança jurídica e da proporcionalidade.
O preceito da personalidade consiste na proibição de a pena ultrapassar a pessoa do réu de modo a atingir terceiros. Portanto, não pode o vice receber uma sanção por um ato que não cometeu.
Já a segurança jurídica confere estabilidade aos pleitos eleitorais e às expectativas de todos os que participam das eleições.
A prestação de contas da chapa Dilma/Temer foi inicialmente aprovada pelo TSE com ressalvas e inexistem irregularidades na prestação das contas do vice. Deve-se prestigiar o eleitor e o voto popular.
Impõe-se também que, em face de um aparente conflito entre princípios, leve-se a efeito uma redução proporcional do âmbito de alcance de cada um deles.
Aplica-se um sopesamento dos valores em conflito, no caso concreto, de modo a encontrar uma decisão necessária, razoável, adequada e menos gravosa ao outro princípio.
A solução menos gravosa e mais eficaz é, sem dúvida nenhuma, apurar as responsabilidades em separado e aplicar as penas individualmente. Não é razoável punir o vice por uma conduta que não cometeu, da qual nem tinha conhecimento.
Também não merece prosperar o argumento segundo o qual não há precedentes no TSE, uma vez que o caso é extremamente singular, pois diz respeito ao julgamento de contas de uma presidente da República que sofreu impeachment e de um presidente legalmente empossado.
Este -nada obstante o difícil quadro político, social e, principalmente, econômico pelo qual passa o país, com preços em alta, desemprego descontrolado e contas públicas com acentuado deficit- já conseguiu reduzir a inflação e começou a recuperar o emprego e a colocar limites aos gastos públicos. O impacto positivo principia a ser sentido.
Ao seguir essa linha de raciocínio, não se poderiam admitir inúmeras decisões proferidas pelo TSE sem que houvesse precedentes.
Está-se diante de um "leading case" (caso paradigma) em que uma eventual e, a nosso ver, improvável decisão contrária geraria novamente instabilidade política, social e econômica, em que a população menos favorecida seria a mais prejudicada.
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, advogado, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra
SAMANTHA MEYER-PFLUG MARQUES é professora titular de direito constitucional da Universidade Nove de Julho (Uninove)
(Publicado originalmente em http://www.ilisp.org)
A arte preenche certos espaços em nossa psique, mas não é mais importante do que a ciência, a indústria, a agricultura e o mercado na sustentação de nossas vidas.
Uma forma muito eficiente de entender isso é visualizando quais emoções tomariam a pessoa mais culta da renascença, por exemplo, se ela surgisse dentro de uma grande exposição de arte do nosso tempo.
Com toda certeza, ela não iria se emocionar com as obras de arte ao redor, mas com as lâmpadas iluminando o ambiente, com os banheiros, com pessoas acima dos 30 anos de idade tendo todos os dentes na boca e com os aparelhinhos que elas usam para falar e enviar dados umas para as outras, os tais smartphones.
Sinto muito, mas artista nenhum, por mais talentoso e produtivo que seja, oferece ao mundo coisas mais relevantes do que nos oferecem as pessoas anônimas que trabalham em laboratórios, fábricas e escritórios.
Os instrumentos dos músicos, os pincéis dos pintores, as espátulas dos escultores, os tantos materiais que constroem os projetos de arquitetura, tudo isso é produzido por pessoas que não recebem aplausos, nem elogios, muito pelo contrário, quase sempre são acusadas de serem frias e gananciosas.
Mesmo que um artista consiga produzir todos as ferramentas e materiais que compõem sua obra, ele dependerá da ciência, da indústria, da agricultura e do mercado para viver, já que nenhuma obra de arte consegue produzir, por si mesma, comida, roupas, medicamentos e produtos de higiene pessoal.
Mas, afinal, por qual razão um artista plástico como eu assina um texto “desvalorizando” os artistas? Eis o ponto que precisa ser compreendido!
A supervalorização da arte tem um efeito inverso. Ao supervalorizar artistas, retira-se deles a condição de indivíduo comum, elevando-os ao status de pessoas especiais, espiritualmente superiores aos demais seres humanos. Alimenta-se assim a arrogância peculiar de muitos artistas, que exigem que a sociedade os aceitem e os financiem a despeito de seus trabalhos agradarem ou não as pessoas - são artistas, portanto, devem ser adorados.
Essa retórica é alimentada pela esquerda por uma razão muito simples: ao afirmar que os artistas são pessoas especiais, imprescindíveis para o desenvolvimento da humanidade, a intelligentsia os convence de que devem exigir que o estado financie suas vidas, seus trabalhos, seus prazeres e até seus vícios. E assim os artistas transformam-se em caixas de ressonância das ideias socialistas. Tornam-se militantes da crença no estado provedor. Quando eles se manifestam em nome dos “direitos” das pessoas, estão, na verdade, cobrando que eles próprios sejam agraciados com o direito de receber dinheiro dos pagadores de impostos por meio do governo.
Foi assim que a arte foi rebaixada à condição de ferramenta ideológica. A academia expurgou a beleza para investir todas as suas energias na retórica ideológica. A obra de arte passou a depender dos textos dos curadores. Os editais de exposições e patrocínios passaram a ser julgados por esses curadores. Os artistas ganham projeção e dinheiro a partir do que os curadores escrevem sobre eles. A beleza passou a ser algo vulgar, algo que emociona o povão, a massa ignorante que não entende de arte.
Um comentário comum em exposições é o “eu não entendo nada de arte, mas deve ser legal, né?”. Foi isso que a intelligentsia plantou na população. Mesmo não se emocionando com a tal “arte contemporânea”, o cidadão comum se sente obrigado a dizer que gosta para não ser taxado de ignorante.
A supervalorização da arte supervaloriza um pequeno grupo de artistas militantes de esquerda em detrimento da grande maioria dos demais artistas, depreciados pela “elite cultural” que os taxa pejorativamente de “artistas comerciais”, aqueles que comentem o crime de ganhar a vida vendendo seus trabalhos para pessoas comuns.
A supervalorização da arte deprecia o ambiente capitalista, aquele que não é feito de discursos bonitinhos, mas de resultados reais e práticos; diminui a importância das pessoas que realmente trabalham duro para manter o mundo funcionando; e despreza os indivíduos que dedicam suas vidas a oferecer coisas que tornam a nossa vida imensuravelmente melhor do que a dos nossos avós.
A supervalorização da arte é a exaltação do financiamento estatal à uma pequena casta pessoas - artistas ou não - que não têm coragem nem talento para ganhar a vida no mercado. Vide Ministério da Cultura e todas as secretarias do tipo.
Supervalorizar a arte transforma a própria arte numa abstração decifrável apenas pelos inteligentinhos da esquerda, que se apresentam como os únicos intermediários entre a ignorância e a sabedoria.
Como se fosse pouco, a supervalorização da arte atrai para o meio pessoas que sequer têm talento artístico, interessadas mais na fama ou no dinheiro que ela pode trazer.
Por exemplo: na semana passada estive em Valparaíso, Chile, cidade famosa pelos seus grafites. A grande maioria muito ruins, por sinal. Mas o que vale é a opinião da “elite cultural” que, quando lhe é conveniente, interpreta qualquer lixo como sendo uma obra de imensurável importância para a humanidade. Não por acaso, os guias da região que apresentam as obras as relacionam com a política, contra o capitalismo e a “direita”.
Em resumo: a supervalorização da arte é sua transformação em veículo de pregação ideológica. Nada menos do que isso.
Se não houvesse essa supervalorização, o artista seria visto como profissional e tratado como tal. Com certeza, haveria menos artistas no mundo, mas a qualidade da arte seria melhor e agradaria mais as pessoas comuns, que se reconheceriam mais na produção artística.
Compreender que a arte não é a coisa mais importante do mundo é a melhor forma de valorizá-la, pois a colocamos no mesmo nível dos serviços e produtos primordiais à nossa vida.
Veja que não estou diminuindo a importância da cultura, que é muito maior do que o conjunto de ofícios exercidos pelos artistas. Cultura é a língua, os costumes, a mentalidade e a religião de um povo. A música, a pintura, a arquitetura e o teatro compõem a cultura, mas não a definem. Na verdade, ocorre justamente o contrário.
Por fim, registro que minha observação qualifica a literatura como uma arte à parte e realmente imprescindível: por meio dela é que o desenvolvimento tecnológico ocorre.
O Partido dos Trabalhadores (PT) soltou uma nota oficial esclarecendo que está tudo normal na Venezuela. Essas notícias horríveis que você recebe são a versão conspiratória da grande imprensa, que junto ao governo brasileiro golpista quer atacar a esquerda no continente (não é licença poética, procure a íntegra). Quase ao mesmo tempo, engrossando a ofensiva fascista da direita, Sérgio Moro condenou o companheiro André Vargas a mais quatro anos de prisão em regime fechado.
Você já se esqueceu de quem é André Vargas — mas não se preocupe, isso é normal. Ninguém é obrigado a decorar James Joyce, nem a literatura completa da Lava-Jato. André Vargas foi um meteoro petista, desses que viravam personalidades proeminentes da República da noite para o dia — na época em que os companheiros mandavam nisso aqui.
Um dia André Vargas não era ninguém, no outro era vice-presidente da Câmara dos Deputados, desafiando publicamente Joaquim Barbosa com o famoso punho cerrado de José Dirceu, o Simón Bolívar do Paraná. Joaquim Barbosa era um ministro do Supremo, que condenou a turma de Dirceu pelo mensalão. Mensalão era um escândalo sem precedentes até surgir a Lava-Jato. E a Lava-Jato começou revelando ao Brasil o segredo da ascensão meteórica de André Vargas no partido governante: dinheiro roubado.
Você pode não se lembrar do meliante, mas o dinheiro era seu.
Está tudo normal na Venezuela, e os companheiros quase iam conseguindo instaurar essa normalidade no Brasil — quando pegaram André Vargas e os doleiros da revolução. Foi ali que a direita começou a matar o sonho de um Brasil bolivariano e igualitário, com todos unidos na fila do papel higiênico.
É preciso muita coragem para apoiar o regime de Nicolás Maduro nas circunstâncias atuais, de cara lavada e à luz do dia. Parabéns ao PT. Do partido estrelado por André Vargas, Vaccari, Delúbio, Paulo Bernardo, Gleisi, Delcídio, João Santana, Pizzolato, Dirceu, Dilma, Lula e cia — enfim, a turma do sol quadrado (os que já viram e os que ainda verão) — pode-se dizer tudo, menos que não seja um partido coerente. O PSOL está morrendo de inveja.
O massacre progressista nas ruas da Venezuela foi aplaudido pelos pacifistas do PSOL até anteontem, quando a ditadura libertária do companheiro Maduro perpetrou seu doce AI-5 sem perder a ternura. A imagem das botinas da guarda bolivariana empoderando uma jornalista caída no chão, entre outras cenas do excesso de democracia aclamado por Lula, confundiu a militância do bem. Enquanto durar o silêncio dos chavistas de butique em Hollywood, na MPB e nas salas de aula (sic), ninguém tem nada com isso. A Venezuela deles é mais embaixo.
Estão todos devidamente abençoados pelo Papa Francisco, o sacerdote da narrativa. No impeachment de Dilma Rousseff, que ceifou a busca da normalidade venezuelana no Brasil, o Pontífice declarou-se "muito triste" e cancelou sua viagem ao país. Agora que a ditadura transformista de Maduro rasgou a fantasia, jogando a força bruta sobre o povo e as instituições, Francisco foi lacônico: convidou os venezuelanos a "perseverar". É um fofo.
Diante da nova canetada fascista de Moro contra um guerreiro do povo, o menestrel do Vaticano bem que poderia deflagrar a campanha "somos todos André Vargas". E são mesmo. Estão irmanados pela fé na retórica coitada sobre todas as coisas — inclusive sobre a realidade onde o pau está comendo. Francisco, André e todos os cúmplices intelectuais da barbárie venezuelana são sócios de uma lenda — sublime e grandiosa como um panfleto de João Santana. Vivem disso. São os cafetões da bondade.
Um deputado que se apresenta como representante dos gays cuspiu em plenário, durante o impeachment, num deputado que se apresenta como representante dos militares. Uma guerra de mentirinha, que interessa essencialmente aos balaios eleitorais de ambos. Bate mais, meu amor. Mas a lenda é soberana, e o julgamento do deputado cuspidor terminou com uma advertência (ai, ai, ai) — que lhe permitiu inclusive tripudiar geral, declarando que sua cusparada foi o ato mais digno do Congresso durante o golpe. Filho mimado cospe na cara dos pais.
O que dizer a todos esses simpáticos mercenários da lenda? Saiam do armário, companheiros!
E o que dizer ao Brasil, semidestruído pela lenda? Pare de mimar esses canastrões, companheiro! Se não quiser ser escalpelado de vez pela normalidade deles.
* Guilherme Fiuza é jornalista
“Pour qu’on ne puisse abuser du pouvoir (...) le pouvoir arrête le pouvoir”. Montesquieu (1689-1775)
A Carta Magna brasileira -seja a atual “Constituição Cidadã” (1988) ou as de 1934 e 1946 – (esta examinada com lupa, pelo gigantesco gênio de Pontes de Miranda) – poderia ser caracterizada como as demais: como uma tarrafa de pescaria. Explique-se: junto com possíveis peixes, chegam à terra velhas botinas usadas e outras tantas porcarias existentes nos rios.
As constituições são tarrafas! Assim, na maior das boas intenções – apregoam igualdade de todos perante a lei; a separação dos três poderes e seus indispensáveis “checks and balances” (freios e contrapesos). Aliás,érotina dizer-se que no Brasil suas cartas magnas foram, desde as primeiras,importadas desde a “imexível” constituição norte-americana, que conserva seus7 artigos e 27 emendas há 230 anos. Os diversos constituintes brasileiros só se esqueceram de trazer junto àformação histórica dopovo daquele País -- que muito difere da colonização brasileira (v. Vianna Moog – Bandeirantes e Pioneiros).
Então? Por que tarrafa? Porque ela arrasta peixes e botinas usadas?
Observe-se que a Constituição de 1988possui 166 direitos singulares e plurais; e tão somente 18 deveres. Pode? Mesmo na Escandinávia isso seria inviável. Mas os constituintes brasileiros chegaram lá! Assim, a “Constituição Cidadã”tarrafeou para o povo a necessidade de poder tudo, com poucos deveres. E como o setor privado não pode tudo atender, exigir tudo do Estado.
Que confusão!
Fosse pintado um quadro artístico – que estaria mais para Salvador Dali do que para Rembrandt -referente à atualidade econômica e social do País, ver-se-ia milhões de brasileiros com as mãos em forma de concha, com os olhos esperançosos, voltados para um céu distante, àespera de um milagre – que nunca virá!Nem mesmo ajudado pelos discursos dos políticos tradicionais.
* Economista e ex-prefeito de Porto Alegre
Responda rápido: quem realmente foi o grande beneficiado pelo capitalismo?
Se você respondeu "os ricos", você nunca estudou história.
A história nos mostra que todo o progresso industrial, todos os aperfeiçoamentos mecânicos e elétricos, todas as grandes maravilhas tecnológicas da era moderna, e todas as grandes conveniências e facilidades que hoje nos são disponíveis teriam significado relativamente pouco para os ricos e poderosos em qualquer época da história.
Por exemplo: um sistema moderno de saneamento básico, com rede de esgoto e água encanada, teria trazido benefícios adicionais para os ricos da Grécia Antiga? Dificilmente, pois eles tinham servos para lhes garantir todas essas comodidades. Os servos faziam o papel da água corrente.
Os nobres da Roma Antiga teriam maior qualidade de vida caso houvesse televisão e rádio? Improvável, pois eles podiam ter os principais músicos e atores da época fazendo apresentações exclusivas em suas mansões, como se fossem seus serventes.
Roupas manufaturadas, máquinas de lavar, microondas e supermercados? Os ricos e poderosos nunca precisaram se preocupar com essas coisas. Roupas e alimentos eram feitos e mantidos por seus serventes, que lhes entregavam tudo em mãos.
Que tal coisas mais modernas, como máquinas fotográficas ou mesmo smartphones para fazer selfies? Isso teria trazido pouquíssimos benefícios adicionais para os aristocratas da antiga, pois eles podiam simplesmente ordenar que os melhores e mais talentosos artistas do reino pintassem quadros com seus retratos e os retratos de outros membros da realeza.
Avancemos as comparações agora para o mundo moderno. Hoje, no smartphone de cada cidadão comum há inúmeros aplicativos que trazem grandes comodidades. Irei destacar dois: o GPS e os serviços de transporte, como Uber, Cabify e Lyft.
Pergunta: como exatamente os ricos e poderosos são beneficiados por um GPS e pelo Uber? Eles dificilmente precisam dessas duas comodidades, pois raramente dirigem por conta própria e ainda mais raramente pegam um taxi. Além de terem motoristas particulares, eles andam de limusines próprias e viajam de jatinhos, e possuem toda uma equipe de funcionários para esquematizar e cuidar de todos os detalhes de suas viagens.
Por outro lado, pense nos enormes benefícios que o GPS, a Uber e o Cabify trouxeram para o cidadão comum, que agora não apenas pode ir a qualquer lugar com seu próprio carro como também pode se deslocar de forma barata e luxuosa em sua própria cidade. E sem precisar de toda uma equipe de funcionários para fazer os preparativos e arranjos.
Os exemplos são inúmeros e podem ser expandidos infinitamente: desde toda a enciclopédia de informações trazidas pela internet ao cidadão comum (os ricos e poderosos nunca tiveram dificuldade de acesso à informação), passando pelas facilidades de lazer, entretenimento e cultura (hoje, você lê todos os livros em seu smartphone e assiste a todos os filmes na comodidade de sua casa, sob demanda; acesso a livros e filmes nunca foi problema para os ricos e poderosos), e culminando na fartura e na facilidade de acesso à alimentação e moradia.
Nada disso nunca foi problema para os ricos e poderosos. Já o capitalismo disponibilizou tudo para o cidadão comum.
Por isso, Ludwig von Mises sempre dizia que o capitalismo não é simplesmente produção em massa, mas sim produção em massa para satisfazer as necessidades das massas. No capitalismo, os grandes inovadores não produzem artigos caros, acessíveis apenas às classes mais altas: produzem bens baratos, que podem satisfazer as necessidades de todos.
Ao passo que, séculos atrás, toda a produção funcionava a serviço da gente abastada das cidades, existindo quase que exclusivamente para corresponder às demandas dessas classes privilegiadas, o surgimento e a expansão do capitalismo geraram a produção de artigos acessíveis a toda a população. Produção em massa para satisfazer às necessidades das massas.
Por isso, todas as grandes conquistas do capitalismo resultaram primordialmente no benefício do cidadão comum. Essas conquistas disponibilizaram para as massas confortos, luxos e conveniências que, antes, eram prerrogativa exclusiva dos ricos e poderosos.
Uma porção desproporcional dos benefícios do capitalismo, do livre mercado, da inovação, da invenção de novos produtos, do comércio e dos avanços tecnológicos vai para o cidadão comum, e não para os ricos e poderosos.
Eis o que disse Joseph Schumpeter sobre o poder do capitalismo em aprimorar o padrão de vida dos comuns:
O motor do capitalismo é, acima de tudo, um motor de produção em massa, o que inevitavelmente também significa produção para as massas. [...]
Verificar isso é fácil. Sem dúvidas, há bens e serviços disponíveis hoje ao cidadão comum atual que o próprio Luis XIV adoraria ter: por exemplo, a odontologia moderna. [...] Por outro lado, a luz elétrica não representaria um grande conforto ou dádiva para uma pessoa poderosa o suficiente para comprar um grande número de velas e ter servos para mantê-las constantemente acesas. Até mesmo a velocidade com que se viajava à época não deve ter sido objeto de grande consideração para um cavalheiro tão distinto.
Roupas fartas e baratas, fábricas de seda e algodão, sapatos, automóveis e vários outros bens são as típicas façanhas da produção capitalista. Por si sós, elas não representam aprimoramentos que mudariam enormemente a vida do homem rico e poderoso.
A Rainha Elizabeth sempre teve meias de seda. A façanha do capitalismo não consiste em fornecer mais meias de seda para as rainhas, mas sim em disponibilizá-las para as mulheres trabalhadoras em troca de quantidades de esforço continuamente decrescentes.
Apenas leia esse último parágrafo de novo. Deveríamos estar ensinando isso para as nossas crianças. No entanto, o que elas estão sendo ensinadas neste exato momento é que, sob o capitalismo, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. O exato oposto da realidade.
Conclusão
Progressistas que dizem que todos os ganhos de uma economia de mercado vão para os ricos são ignorantes da realidade que os cerca. Apenas pense no tanto que essas pessoas estão erradas da próxima vez que você usar seu laptop, tablet, smartphone, GPS, Spotify, ou se deslocar utilizando Uber, Lyft ou Cabify.
A única entidade que pode afetar, atrasar e atrapalhar todo esse progresso incrível, dificultando o acesso do cidadão comum a essas comodidades que melhoram seu padrão de vida, é o governo e suas políticas que destroçam a economia e o poder de compra das pessoas.
(Publicado originalmente na Folha de Londrina)
Ideologias totalitárias transformam adversários em não pessoas
Mesmo quando faço minhas críticas mais pesadas, procuro sempre seguir algumas regras pessoais. Nunca me alegro com a infelicidade alheia; nunca me deixo dominar pela raiva; nunca esqueço que as pessoas podem, um dia, reconhecer os próprios erros e receber perdão; nunca sou condescendente com a mentira, porque o amor à verdade é a condição essencial para o amor ao próximo. Quem me conhece sabe que procuro sempre manter o bom humor, mesmo nas situações mais tensas. Acordo rindo, rezando e cantando; às vezes fazendo imitações. Vou dormir do mesmo jeito.
Como vocês sabem, já fui ateu, comunista e defensor do aborto. Desci ao inferno e descobri que o principal combustível da cultura da morte é o ódio, ódio em quantidades industriais. Não foi por acaso que os regimes revolucionários promoveram os maiores genocídios da história. Também não é por acaso que certos grupos continuam promovendo a morte de milhões de seres indefesos. As ideologias simplesmente negam o caráter humano àqueles que se coloquem no caminho da "causa". A vítima do comunismo é sempre o "burguês", "o tubarão capitalista" o "traidor", o "inimigo do povo" (assim como no nazismo era o "judeu explorador"). E a vítima do aborto é sempre um "amontoado de células", um "ser sem história". Ideologias são fábricas de não pessoas. Quando dominam as estruturas de poder, são capazes de destruir todo um país; foi precisamente o que aconteceu no Brasil.
O ódio funciona como uma droga. Quanto mais você o consome, precisa dele em maiores quantidades. Um dia, não é você mais que está falando, é ele. Descobri isso quando olhei para uma igreja devastada por um incêndio, há 17 anos, e pensei: "Esta é a minha alma". Foi o jeito que Deus encontrou para me alertar sobre o inferno em que estava preso.
Confesso que estava desacostumado a presenciar manifestações de ódio. Todos os protestos de rua em que participei nos últimos anos, embora houvesse indignação, foram pacíficos e alegres. Quanto aos protestos com bandeira comunista e petista, venho deles mantendo rigorosa distância.
Nesta semana, porém, eu vi o ódio bem de perto. Foi durante a audiência pública sobre o Dia do Nascituro. Assisti a homens e mulheres rugindo furiosamente contra uma simples data no calendário, destinada à reflexão sobre os nossos irmãozinhos e irmãzinhas não-nascidos. Por que tanto ódio contra seres tão indefesos?
É simples: a defesa dos nascituros vai contra o projeto de poder militante. Como eles não conseguiram eleger ninguém para defender essa visão totalitária de mundo, apelam às instituições e aos coletivos ainda controlados pela esquerda. Houve de tudo naquela audiência: de seminudez a carteirada.
No final da audiência, mostrei um pequeno crucifixo a uma das militantes mais furiosas. Ela me olhou com tamanho ódio e sarcasmo que não tive dúvidas: para essa turma, eu sou uma não pessoa. Você também, caro leitor cristão. E até o bebê que está na sua barriga, futura mamãe. Somos todos não pessoas.
http://www.folhadelondrina.com.br/blogs/paulo-briguet