• Fernando Araújo
  • 07 Abril 2021

Fernando Araújo

 

A Universidade de Oxford pretende liderar um grande ''reset" mundial no ensino de Música, propondo rebatizar a assim chamada música clássica de 'música branca da era dos escravos', reformar a própria notação musical ( 'sistema colonial de representação'), e por fim cancelar Bach, Mozart e Beethoven por serem parte do tal contexto de  'supremacistas brancos ', ..., enfim, mudar todos estes pontos por causarem  'grande sofrimento aos alunos negros' .

A única coisa que pode 'causar grande sofrimento' aos alunos de outras raças é privá-los do contato com as obras-primas de Bach, Mozart e Beethoven. Entre todos os compositores, Bach é talvez o mais apolítico, e sua obra vai além dos parâmetros da Música em si e chega a ser um híbrido perfeito entre Arte e as assim chamadas 'ciências exatas' – geometria, aritmética, física, astronomia – por conter em si todas as fórmulas, proporções, e até mistérios do Universo.

Em outras palavras, Bach está além de seu tempo e de qualquer tipo de colonialismo. Mozart pode até ser mal interpretado por certas passagens do libreto da ' Flauta Mágica ', principalmente se tiradas do contexto do seu Zeitgeist e dos costumes da época – época na qual vocativos como 'o Mouro de Veneza', o 'judeu', o 'turco', o 'alemão' eram comuns e não tinham necessariamente conotação de preconceito, e na qual a própria imperatriz da Áustria se referia a uma ópera que ela menosprezava com adjetivos como 'una porcheria tedesca!' ...

Mozart era cidadão do mundo e dos compositores o mais cosmopolita, fascinado pela literatura – as Mil e Uma Noites, por exemplo – e por toda a cultura do Oriente, pelas quais muitas vezes deixou-se inspirar, como demonstram os movimentos 'alla turca' da sonata para piano em lá maior e do concerto para violino e várias de suas óperas (Zaide, O Rapto do Serralho, a própria Flauta, entre outras). Mozart era humanista e vivia e compunha sob os princípios do Amor Universal, antítese de qualquer forma de racismo, preconceito, injustiça – tanto é que, até recentemente  (antes do despontar da tal 'cultura de cancelamento') obras suas como As Bodas de Figaro eram regularmente instrumentalizadas a torto e direito como manifestos marxistas... Independentemente de qualquer postura política – pois, na minha modesta opinião, Mozart era também apolítico – a música de Mozart respira e inspira Amor Universal, simplesmente.

E quanto a Beethoven: se ele fosse supremacista de alguma coisa não teria apagado a dedicatória a Napoleão na sua 'Eroica'... Outro que estava muito além da política do tempo, e muito mais absorvido em questões mais profundas e transcendentes. Sua música também respira e inspira Amor, mas também toda a tragédia humana, a dor profunda, a perseverança, a força e a esperança no ser humano ( talvez não seja coincidência que esta crise tenha começado exatamente em 2020, ano de Beethoven).

Assim, toda essa grande música está muito além de qualquer colonialismo, supremacia, muito além do Tempo: é música atemporal. Equivalentes dignos na Arquitetura seriam por exemplo as pirâmides do Egito. Ou será que os doutores de Oxford também pretendem cancelar as pirâmides? Enfim, estas também pertencem a um período tenebroso de escravidão, não é verdade? E diferentemente das obras de Bach, Mozart e Beethoven, foram diretamente construídas por mãos de escravos. Ou tal memória não causa sofrimento?
Privar os alunos não-brancos da música atemporal de Bach, Mozart e Beethoven é não somente uma decisão completamente absurda, equivocada e infundada, mas acima de tudo RACISTA -   racista por parte dos pseudo-acadêmicos, pseudo- professores, pseudo-intelectuais em subestimar o potencial, a sensibilidade e a inteligência dos alunos de outras raças em absorver e aprender da Linguagem Universal destes grandes mestres.
Música é Linguagem Universal e vence todas as barreiras  - de culturas, de raças, de gênero, de religião..., seja um negro spiritual, uma canção em swahili, Bach, Mozart ou Beethoven, a música vai sempre direto ao coração.  Mesmo a notação musical estabelecida tem notas e pausas pretas e brancas e as tonalidades são de todas as cores. Caso os doutores de Oxford estejam realmente bem-intencionados, em vez de cancelarem os grandes mestres, muito mais valeria se simplesmente adicionassem no seu currículo clássicos de outras culturas.  Que tal ' Cultura do Adicionamento ' em vez de ' cancelamento '?
Concordo que o termo 'música clássica ' mereça um 'reset' - afinal, como sabemos, nem toda música 'erudita' pertence ao período clássico.  E o termo 'erudita' considero mais problemático ainda - pois 'erudita ' pode conotar 'elitista',  enquanto Bach, Mozart e Beethoven, apesar de todo o seu refinamento, escreviam bem conscientemente numa linguagem musical acessível às pessoas comuns e não somente a uma elite. (Nas palavras do próprio Leopold Mozart enquanto ensinava o seu filho-prodígio: 'Wolfgang, escreva música que seja acessível tanto aos conoisseurs como aos leigos!'  )

Assim, em vez de substituir-se os termos  obsoletos como música 'clássica ' e 'erudita' por outros piores e aberrações como 'música branca da época colonial', que tal seria 'Música, Linguagem Universal'? 
Enquanto os doutores de Oxford continuam elaborando seus devaneios e supremacias, prefiro continuar com minhas aventuras musicais insubstituíveis por quaisquer de suas teorias... Como a oportunidade de trazer ópera pela primeira vez a uma comunidade Massai num safari do Quênia... onde cada Massai, em sua inocência, não corrompido por quaisquer narrativas e sem nenhum cursos de Música em Oxford, recebe esta Linguagem Universal de forma direta, imediata, humanamente saudável ... sem nenhum 'sofrimento' imputado... com entendimento livre dos delírios e alucinações dos tais 'doutores': o  entendimento simples e direto do coração.  Enfim, com certeza era exatamente este o efeito sonhado pelos grandes mestres. " 

' Fernando Araujo é cantor lírico, vive em Salzburgo,  Áustria, onde trabalha com várias companhias locais e no exterior. Também é pianista preparador de repertório e leciona no Dept. de Ópera da Universidade Mozarteum, Salzburgo. '

 

 

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 05 Abril 2021

 

Alex Pipkin, PhD


A ditadura do pensamento esquerdizante - explícita e/ou velada - vai adentrando ao último desígnio -, anteriormente muito difícil de imaginar.
Nas mídias, nas universidades, na política, na justiça, nos bares da moda, a ideologia disfarçada de bom-mocismo e de preocupação com o povo, é transparente para ?todos aqueles que enxergam, ou se preferirem, nem é preciso de óculos, basta não ser surdo.

Todo indivíduo que ousa discordar do coletivo e de suas vontades falaciosas, sejam essas econômicas, sociais, políticas, culturais, e de seus conceitos sobre racismo estrutural - evidente que racismo persiste - de políticas LGBTQIS e de diversidade - que, meu juízo, vai muito além de cor e de gênero -, enfim, de suas intolerantes posições referentes às políticas para esses e outros grupos minoritários, é automaticamente alçado a nobre designação de racista, autoritário, retrógrado, homofóbico, misógino; nazista eu não posso ser, pois sou judeu.

A sonhadora turma vermelha, devo admitir, fez um trabalho memorável.
A infiltração nas instituições seguiu ao pé da letra os ensinamentos gramscianos.

Embora a foto do dia seja a moderna turma de jovens que reprovou no Enem pela utilização do pronome neutro (28 candidatos alcançaram nota mil e 86 mil zeraram redação!), eles têm executado um trabalho magnífico quanto à novilíngua.

O objetivo não era trivialmente inverter o significado das palavras e fornecer uma forma de expressão ligada a uma única visão de mundo professada, mas, sobretudo, tornar outros modos de pensamento impossíveis. Principalmente os tenros idealistas não percebem que seus líderes conseguiram impedir que eles próprios pudessem exercer um pensamento autônomo.

Agora, o último desígnio foi atingido: as empresas.

A avalanche é real, o ataque é implacável ao lucro do malvado empresário - evidente que só se vê aqueles que conseguem ganhar dinheiro...

O objetivo empresarial agora não deve ser o lucro, mas a missão da empresa, que compulsoriamente deve estar ligada a inclusão social, disfarçada de diversidade.

É tragicômico o que vejo, leio e escuto, eles sequer sabem diferenciar diversidade de inclusão social.

No mundo empresarial competitivo - em que todas as empresas competem para alcançar lucratividade superior e sustentável - as marcas se posicionam para atingir um lugar privilegiado nos olhos, nas mentes e nos corações dos clientes, devendo expressar claramente os valores e os princípios que representam e em que a organização acredita.

Na verdade, sem entrar em detalhes, o posicionamento estratégico estabelece como a empresa alcança a satisfação de seus clientes: maior valor, baixo custo ou ambos.

Sim, em comunicação é evidente que o tema diversidade está em alta, não poderia ser diferente.

Ultimamente só se vê marcas com campanhas em torno de causas relacionadas aos negros, aos LGBTQIS e a outros grupos minoritários.
É evidente que esses temas devem ser discutidos racionalmente dentro das organizações, a fim de se apurar desvios e oportunidades de melhoria. Não acho que possa existir, nelas, discriminação e falta de respeito à dignidade humana.

Sem dúvida deve-se lutar pela igualdade de oportunidades, com a consideração de méritos e de possibilidades, o que é distinto de imposições pela aparência.

A atenção quanto ao racismo e ao preconceito racial, por exemplo, é muito distinta da narrativa de racismo estrutural.

Imaginem se todas as marcas, em todos os setores e em todos segmentos, utilizarem o mesmo posicionamento de marca relacionado a diversidade e a inclusão social, quem se diferenciará efetivamente? Todos os clientes estão mesmo interessados nesta narrativa?

Para alguns o “feijão com arroz” do preço, qualidade e utilidade não vale mais?
Não creio que falar de pautas minoritárias seja a estratégia adequada para TODAS AS EMPRESAS.

Pelo contrário, em alguns casos, como por exemplo, o do Burger King, isso seja encarado por clientes como eu, como uma forma oportunista e meramente mercadológica (comunicação) de se apropriar de demandas de minorias. Pode soar falso.

Para a ditadura do pensamento esquerdizante se completar, só faltava o “capitalismo das partes interessadas” - governo e corporativistas -; a dominação está completa.

Como eu ainda posso e me permito pensar fora da prisão cognitiva da novilíngua progressista, acho que quando os resultados empresariais metálicos começarem a emergir, tal qual as teorias de organização econômica que advogam o “bem da coletividade”, toda essa formosura teórica irá naufragar.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 04 Abril 2021

Gilberto Simões Pires

 

TRÊS PILARES

Por mais que os índices, tanto de audiência quanto de faturamento, dos potentes veículos de comunicação da Rede Globo estejam em queda livre, como pode ser observado no balanço financeiro recentemente divulgado, o fato é que as demais empresas jornalísticas concorrentes ainda estão longe de ameaçar a liderança que foi construída ao longo de muitos anos sobre um poderoso alicerce com três importantes pilares: NOVELAS, NOTICIÁRIOS E FUTEBOL.

 CAMPANHA DIÁRIA

Pois, se por um bom tempo os veículos de comunicação da Globo fizeram de tudo para serem vistos e reconhecidos por produzir e entregar um JORNALISMO SÉRIO E DOTADO DE GRANDE CREDIBILIDADE, de uns tempos para cá, notadamente depois que Jair Bolsonaro foi empossado, em janeiro de 2019, o que mais se viu foi exatamente o contrário. A partir de então, ou bem antes até para os menos atentos, os programas jornalísticos do Grupo Globo se transformaram em legítimos CAPÍTULOS DIÁRIOS de uma FORTE CAMPANHA com o claro propósito de FORMAR OPINIÃO e PROPAGAR, sem a mínima hesitação e recheada de NARRATIVAS de cunho IDEOLÓGICO SOCIALISTA, a necessidade urgente de derrubar, a qualquer custo, o presidente da República. 

 RESPONSÁVEL PELO CAOS ECONÔMICO, SOCIAL E FINANCEIRO

Ora, como se não bastasse o interesse claro de TRANSFORMAR EM COISA RUIM PARA O POVO BRASILEIRO todas as DECISÕES tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro, onde a maioria delas consta no exaustivo Programa de Governo que ajudou na sua eleição, no início de 2020 o Brasil também foi atingido pela complicada PANDEMIA DO COVID-19. Isto fez com que a MÍDIA ABUTRE, na qual a Globo se destaca de forma ímpar, passasse a VENDER AOS SEUS SEGUIDORES A IDEIA, E A CERTEZA de que o CAOS ECONÔMICO, SOCIAL e FINANCEIRO que o Brasil vive (não se sabe até quando) tem apenas um responsável: Jair Bolsonaro. 

 GOLPISTAS

Assim, de forma muito bem orquestrada, os veículos identificados como MÍDIA ABUTRE, na companhia de vários políticos, juristas, magistrados, ministros do STF, empresários e outros tantos GOLPISTAS adeptos do PATRIMONIALISMO, passaram a construir, conjuntamente, a bandeja que se destina a servir, em praça pública, a tão cobiçada cabeça do presidente Bolsonaro. E, neste particular, os GOLPISTAS tentam, de todas as formas, convencer o pobre público brasileiro, de que Bolsonaro é DITADOR e que eles são os legítimos defensores da DEMOCRACIA e da LIBERDADE. Pode?

 DEFENSORES DA DEMOCRACIA? CONTA OUTRA...

Vejam por exemplo, quem são os SEIS POTENCIAIS CANDIDATOS à disputa pela Presidência da República em 2022 que assinaram, ontem, 31/3, um MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA: o ex-ministro da Saúde LUIZ HENRIQUE MANDETA; JOÃO AMOEDO ( Novo); CIRO GOMES  (PDT), EDUARDO LEITE ( governador do RS); JOÃO DORIA (governador de SP); e LUCIANO HUCK (Globo). Todos, sem distinção, detestam a DEMOCRACIA. Todos defendem e/ou baixaram decretos que impõem a FALTA DE LIBERDADE. Exigem e pregam, atos que propõem a PRISÃO DOS CIDADÃOS QUE QUEREM E PRECISAM TRABALHAR. Que tal?  

 NARRATIVAS FALSAS

Portanto, aproveitando a campanha publicitária da própria Globo, o que nos resta é apenas confirmar o seguinte: MANIPULAÇÃO DE INFORMAÇÃO, VIA NARRATIVAS FALSAS, É TECH, É POP, É TUDO. TÁ NA GLOBO!

 Em 01/04/2021

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  • Gustavo Corção
  • 02 Abril 2021

Gustavo Corção

O sermão de São Gregório Nazianzeno começa numa espécie de jubilosa exclamação: «Páscoa, Páscoa, Páscoa, três vezes Páscoa, direi em honra da Santíssima Trindade. Esta é para nós a festa das festas, a solenidade das solenidades. Como o fulgor do sol apaga as estrelas, assim esta festividade excede a todas as outras, não só as humanas mas as do próprio Cristo e que por causa dele se celebra». Lembremos a instituição da Páscoa no Antigo Testamento, quando Deus encarregou Moisés de ensinar os israelitas que sofriam servidão no Egito: «No décimo-quarto dia desse mês, os filhos de Israel tomarão em cada família um cordeiro de um ano, sem mancha, o imolarão, e com o seu sangue marcarão os umbrais de suas portas, e nessa mesma noite comerão a carne do cordeiro com pão sem fermento e ervas amargas... E comerão com os cintos atados, as sandálias de viagem nos pés, e com o bastão na mão; porque é a Páscoa, isto é, a Passagem do Senhor». E agora nesta Páscoa do Novo Testamento, em que o próprio filho de Deus é imolado, procuremos compreender bem em toda a profundidade, o mistério desta solenidade três vezes bendita.

 Páscoa, para nós quer dizer Passagem e faz-nos lembrar que somos peregrinos, que estamos em caminho da pátria como os israelitas estavam a caminho de Canaã, onde abundava o leite e o mel. Por isso, a nossa maior festa ainda é celebrada em marcha, às pressas, com o cinto apertado e a sandália de viajante nos pés. Ainda não chegamos, e por isso, à carne do cordeiro que comemos se misturam ervas amargas. Estamos no meio do Mar Vermelho. Em direção à Pátria, mas ainda no mundo. Estamos no deserto, vivendo da palavra de Deus.

 Páscoa, para nós, quer dizer também Discriminação. É a festa da nitidez. Ou temos os umbrais de nossa alma marcados com o sangue do Cordeiro, ou pereceremos na Passagem do Anjo exterminador. Esta característica pascal parece contrária à anterior pois lá se falava de transição e aqui se fala de nitidez e essas duas idéias têm ressonâncias opostas. Convém portanto precisar melhor: A transição se refere à nossa condição exterior de peregrinos; a discriminação se refere à marca interior do Sangue de Cristo em nós. Estamos em trânsito, passando por estações intermediárias, vivendo dia a dia as gradações do mundo, mas nossa alma, por cima do mundo, está ancorada; e em contraste com o cinzento dos dias está nitidamente marcada com o rubro Sangue do Cordeiro.

 A cruz que é para os gentios sinal de escândalo e de loucura, é para nós sinal de nitidez e de absoluta discriminação. Onde ela se planta desaparecem os meios-termos, os compromissos, as concordatas, e toda essa indecisão que fazia muitos israelitas no deserto suspirarem com saudades da servidão do Egito, porque lá, ao menos, tinham garantida a gamela de carne com cebolas. Para nós, a Cruz deve ser o sinal de um franco contraste. Ou somos marcados, ou não somos. Ou estamos com Cristo ou contra ele. Ou avançamos ou regredimos. Não há meio-termo à luz do círio pascal.

 Apliquemos em nós, cada dia, cada hora, esse espírito discriminador da Páscoa, e saibamos imprimir em cada um de nossos atos o sinal da cruz. A tentativa mais insensata que fazemos é a de procurar um meio-termo entre Deus e o Mundo. Dizemo-nos católicos com uma terrível tranqüilidade e com uma impressionante inconseqüência. Dizemo-nos católicos e continuamos a viver as mesma infidelidades e a saborear as mesmas carnes e cebolas do faraó. Dizemo-nos cristãos, mas a marca do Sangue mais parece uma rosada aguadilha, mais parece um sinal de maquilagem do que uma infusão de incondicional amor.

 Sejamos pascais, sejamos nítidos; ou não seremos Cristãos.

 Páscoa, para nós, também quer dizer salvação. Se estamos em marcha, e se nitidamente optamos, já estamos salvos, salvos em Esperança. O mesmo Sangue que discrimina já tem a virtude salvífica, já opera o que significa e já nos dá direito de falarmos a Deus com a liberdade de filhos.

 Terminemos com a leitura de São Gregório Nazianzeno:

 «Hoje é o dia em que fugimos do poder egípcio, das mãos do odioso faraó e de seus cruéis ministros; dia em que nos libertamos da argila e das olarias. A festa do Êxodo já ninguém há que proíba celebrá-la com o Senhor nosso Deus, e não mais com o velho fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade, nada trazendo conosco do ímpio fermento egípcio. Ontem angustiava-me com o Cristo na Cruz, hoje sou também glorificado. Ontem com Ele morria, hoje com Ele sou vivificado. Ontem sepultava-me com Ele, hoje com Ele ressuscito».

GLOBO Sábado, 25/3/78

Reproduzido de https://permanencia.org.br/drupal/node/107

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  • Érika Figueiredo
  • 02 Abril 2021

Érika Figueiredo

 

Tenho falado, nas inúmeras lives e entrevistas de que participo, acerca do lockdown e de seus efeitos danosos para a sociedade, a economia, as crianças, os assalariados, os empresários, pequenos empreendedores e comerciantes, e toda a gama de pessoas que são prejudicadas com a paralisação dos serviços e com o prejuízo daí advindo.

            Sempre esclareço que, em um país com tamanha pobreza como o Brasil, as medidas isolacionistas promovidas na Europa, continente em que as dimensões populacionais e territoriais dos países são pequenas, são fadadas ao insucesso, e que mesmo que os governos se esforcem, os auxílios nunca atingirão a população toda, além de gerarem um déficit monstruoso para a nação, com um impacto que perdurará por anos.

            Falo, também, do modo como os EUA conduziram a pandemia, esse sim um país gigantesco, e que agora estão com os casos em avançado declínio, mesmo sem a realização de lockdowns agressivos. Sei que o vírus existe, não sou negacionista ou coisa parecida, mas creio que há outras formas  de se lidar com o seu avanço.

            Vejo uma capitalização política enorme nos discursos públicos, e isso me deixa bastante preocupada com o futuro de nosso país. Afinal, a política era, segundo Platão, a arte de dar uma vida boa para a população, e deveria ser, segundo o filósofo, exercida pelos homens mais sábios, que apresentavam maior capacidade de lidar com as situações e tomar decisões. Infelizmente, não é isso que vemos por aqui.

            Quando abordo tais temas, muitas pessoas me perguntam qual será o futuro que nos espera, se dizem angustiadas e me questionam sobre quais atitudes devem tomar, diante do quadro atual de coisas. Afinal, o mundo todo está em crise. A minha resposta, invariavelmente, é sempre a mesma: ordenem-se por dentro, cuidem de sua casa, de sua família, de seu trabalho, de seu entorno, pratiquem a religião.

            Eric Voegelin, escritor alemão naturalizado americano, que fugiu de sua terra natal em 1938, para não ser preso pelo regime nazista, e tornou-se um professor, escritor e palestrante mundialmente famoso, foi quem primeiro tratou dessa ideia, do modo que a exponho aqui. Mergulhou fundo na corrupção da sociedade alemã, através da destruição dos símbolos humanos e divinos, pela linguagem, o que permitiu que Hitler fosse acolhido como um semideus.

            Este grande analista da realidade vai explicando, em sua obra Hitler e os Alemães, que a miséria intelectual e moral que tomou conta da Alemanha após a 1ª Grande Guerra, foi um terreno fértil para a chegada de Hitler, que tratou de modificar a linguagem e derrubar a religião, para ter maior controle sobre os indivíduos e suas mentes, assim que ascendeu ao poder.

            Voegelin foi o maior cientista político do século passado, e nunca deixou de ter os pés bem fincados no chão. Muito conhecido na Europa e nos EUA ( embora praticamente desconhecido no Brasil), era um profundo estudioso de Platão, Aristóteles, Max Weber, tendo sido aluno de Hans Kelsen. O professor Olavo de Carvalho , por ser um grande admirador de suas obras, tem sido um dos responsáveis por difundi-las por aqui.

Esclarecia Voegelin, em suas obras, que o mais importante, para o indivíduo ( e o mais difícil também), é a busca da ordem interna do ser. Estar em ordem interna, mesmo dentro do caos, conhecer a verdade e saber seu propósito de vida, tendo a certeza de que este é o desejo divino para os homens, deve ser a missão da vida de cada um. 

            Estamos atravessando tempos sombrios, loucos, nos quais o medo e a ignorância coletivas cegaram a humanidade. A miséria moral e intelectual a todos atingiu e contaminou. A linguagem foi corrompida, para que em seu lugar sejam inseridas as ideologias. A civilização vive uma grande crise espiritual e de símbolos. As crenças vêm sendo trocadas por ideologias que subvertem a ordem moderna.

            Isso, historicamente, aconteceu em muitas nações. A Alemanha não foi a única. Temos como exemplo a Rússia de Stalin, a Venezuela, Cuba, a Coréia do Norte, a China e muitas outras, que se encantaram  pelo canto da sereia de ditadores cruéis, travestidos de heróis, os quais foram modificando a linguagem e o sentido das palavras e dos símbolos, a fim de tornarem a sociedade uma massa de manobra rendida às suas vontades tirânicas.

            Como digo insistentemente, a História é cíclica, ela se repete. Deveríamos aprender com as tragédias gregas, que eram escritas em forma de trilogia, e possuíam as seguintes etapas: o excesso, a transgressão; o sofrimento, a punição; a redenção, a transformação. O crescimento vem da dor, e é preciso sentir na pele o peso das escolhas, para que a mudança chegue.

As tragédias gregas eram escritas e encenadas com caráter educativo, e com a finalidade de mostrarem para o povo que era possível evitar o sofrimento e a punição, fazendo as escolhas certas. Nós, infelizmente, não conseguimos. Falimos como civilização, e agora vivemos uma profunda crise moral e espiritual. Vamos arcar com as consequências disso.

Assim são os ciclos sociais. Já desfrutamos dos excessos, como sociedade, desde a década de sessenta do século passado. Entramos em rota de colisão com os valores conservadores, dando de ombros para tudo que deu certo, ao longo das eras da civilização. Os excessos nos levaram ao caos. Agora, vivemos a ressaca desses excessos, nos encontramos perdidos, desorientados, e pagaremos um preço alto pelos símbolos e valores que fomos dispensando ao longo dessa trajetória, os quais nos escoravam como civilização. 

Voegelin dizia que, enquanto isso, devemos aproveitar para nos conectar com a ordem interna que todo homem precisa ter, e que é obtida através da busca do divino, do estudo da filosofia, do resgate das virtudes. O indivíduo precisa investir nos cuidados com a família e com o lar, em sua mente, seu corpo e sua alma, para só então, em prefeita comunhão consigo, sair a lutar pelo mundo.

Isso lembra bastante o ensinamento do psicólogo canadense Jordan Peterson, sobre arrumar o próprio quarto, antes de sair por aí ditando as fórmulas para modificar o mundo. Eu, você, nossos familiares, pouco ou nada podemos fazer, para modificar a sociedade atual, corrompida por ideologias.

Mas podemos estudar os clássicos, praticar a religião, passar adiante valores morais sólidos, resgatar os símbolos e a linguagem, para que o mal não prevaleça sobre o bem, para que Deus retorne aos lares e aos corações da humanidade, e para que dias melhores cheguem para o nosso sofrido Brasil.

“Ninguém está obrigado a participar da crise espiritual de uma sociedade; ao contrário, todos estão obrigados a evitar a loucura e viver sua vida em ordem”. Eric Voegelin

*A autora é Promotora de Justiça junto ao MP/RJ 

Publicado originalmente em https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/839/como-lidar-com-a-crise-da-civilizacao.html

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 30 Março 2021

Akex Pipkin, PhD

 

Ontem à noite assisti ao filme “The Nest”. Li a sinopse e achei os atores e a história interessantes. Valeu a pena.
Jude Law atua como Rory, um homem de negócios, um vigarista de verdade - eles sempre existiram e marcam presença em qualquer profissão - , que vai para Londres em busca da fortuna.
Entretanto, sua ganância e sua vida de rico tipo  “faz de conta” dá causa a que essa irrealidade não se crie, destroçando tudo, inclusive sua família. A propósito, sua esposa Allison no filme, a atriz Carrie Coon, está espetacular.
O personagem de Law é um executivo ambicioso e ganancioso, porém, num mundo real das transações capitalistas, de mercado, as enganações muitas vezes encontram a verdade, ou seja, os necessários princípios virtuosos pelo caminho, e não se criam.
Primeiramente acreditei que se tratava de uma crítica ao capitalista ganancioso, mas terminei pensando que o filme possa querer exaltar a verdadeira versão do capitalismo, aquela em que o interesse próprio racional, nada tem a ver com a ganância egocêntrica.
A ganância é mesquinha e autocentrada, mas o interesse próprio é uma força individual vital que nos motiva a agir na direção do atendimento de nossas próprias necessidades.
Contudo, quase todos os críticos das trocas livres e voluntárias nos mercados esquecem que esse interesse próprio racional só se concretiza e, ao mesmo tempo, exige que nos envolvamos em relacionamentos e colaboração benéfica com outras pessoas, reverberando em benefícios e em melhorias para os outros.
Inquestionavelmente, o capitalismo é inerentemente cooperativo.
A economia de mercado faz direcionar esse interesse próprio para as atividades produtivas e colaborativas.
Aliás, aqueles que atuam de maneira gananciosa e desleal com os outros, são punidos pela cada vez mais importante reputação. É por isso que a concorrência é tão vital, a fim de que os consumidores possam fluir com suas necessidades e seus desejos para outras ofertas competitivas.
Aqueles empresários que mesmo motivados pelo interesse próprio racional, não conseguem entregar um pacote de valor que satisfaz as necessidades dos cidadãos-consumidores, não prosperam no longo prazo.
Os consumidores, livres para escolher, operam como os juízes nos mercados.
Neste sentido, o estímulo para a destruição criativa e as inovações é o lucro. O surgimento de novas e melhores soluções para a vida em sociedade acontece por meio de empresários dispostos a inovar e a correr riscos para melhor atender os clientes e lucrar.
Não é por acaso que o grande Adam Smith pregava o respeito ao interesse próprio, na expectativa de que houvesse o benefício para toda a sociedade.
Quando as transações são livres numa economia de mercado, as próprias pessoas, por meio das relações interpessoais e comerciais, separam o joio do trigo, o interesse ganancioso do interesse próprio racional. Este último implica, portanto, em resultados sociais benéficos para todos.
Os gritos cada vez estridentes contra o capitalismo - que é distinto daquele com abissais intervenções governamentais - querem genuinamente trazer à tona um sistema centralizador e controlador que justamente inibe os processos de destruição criativa e a soberania do consumidor. As iniciativas nesta direção estão aí, transparentes para quem quiser enxerga-las.
Voltando ao filme, é interessante notar que o ganancioso Rory encontrou refúgio no seio de sua família - embora seja uma questão em aberto; é o que dá para depreender. Eram outros tempos, Reagan, Thatcher...
Nos tempos estranhos e “progressistas” de hoje, os puros de coração e de moral exterminaram com a instituição familiar.
E o apoio?! Agora só nas tribos.

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