• Dagoberto Lima Godoy
  • 11 Novembro 2025

 

Dagoberto Lima Godoy      

            A COP-30, em Belém do Pará, será um acerto de contas com a realidade?

 O planeta aqueceu cerca de 1,1 °C desde o fim do século XIX. A influência humana é evidente: combustíveis fósseis e mudança de uso do solo empurraram os gases de efeito estufa para cima. O mar subiu; o gelo recuou; extremos ficaram mais frequentes.

O quadro é sério, mas não pede pânico: demanda ação e ação correta exige precisão. A ciência não é bloco monolítico: debate sensibilidade climática, papel dos aerossóis, séries de satélite — como ajustar e comparar medições ao longo do tempo — e a atribuição de eventos — que estima o quanto o aquecimento elevou a probabilidade e a intensidade de ondas de calor ou chuvas extremas. Nada disso nega o aquecimento, mas refina números e margens de incerteza. Realismo é isto: medir melhor para agir melhor.

Ocorre que a política climática não se move num vácuo, mas num tabuleiro de incentivos. Subsídios e o legado fóssil (petróleo, gás, carvão) distorcem preços e atrasam a transição. Há marketing “verde” que não se sustenta e mercados de compensação — créditos de carbono — que pedem governança séria. Na direção oposta, ajustes de carbono na fronteira (BCA) e políticas industriais que reduzem o custo de investir no baixo carbono empurram a economia para competitividade limpa.

Na verdade, há também um clima de fadiga. Promete-se muito, entrega-se pouco. O vai-e-vem regulatório eleva risco e custo de capital. Casos de marketing “verde” enganosos corroem confiança. A policrise — segurança, imigrações, saúde, tecnologia — disputa atenção e recursos. Na comunicação, alternam-se negacionismo e fatalismo apocalíptico, que paralisa. Resultado: vontade política dispersa, cúpulas esvaziadas, público cansado.

Como sair disso? Trocar promessa por entrega: metas com cronograma e métricas públicas; revisão de subsídios ineficientes; mercados de carbono íntegros; obras visíveis no cotidiano; comunicação honesta — sem alarmismo nem triunfalismo.

Agenda climática não é guerra cultural nem peça de marketing. É gestão de risco com oportunidades de produtividade e competitividade. Reconhecer o perigo, admitir incertezas, cortar exageros e focar na execução é o que recoloca governos, empresas e cidadãos na mesma página. Menos slogans, mais obras; menos palco, mais contrato; menos promessa, mais auditoria e prestação de contas. É assim que ciência vira política pública — e promessas viram resultados. Belém está sendo um teste: vamos esperar que dê bons frutos.

*        O autor, Dagoberto Lima Godoy, é Engenheiro civil.

     

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  • Adriano Alves-Marreiros
  • 07 Novembro 2025

 

 

Adriano Alves-Marreiros

         Fernanda diz que eu eu leio o mesmo livro várias vezes...  Ela tem razão:  eu releio livros.  Eu revejo filmes.  As pessoas costumam ouvir uma mesma música ou banda em certos momentos.  Não que eu não faça isso: mas eu releio livros! Eu revejo filmes!

Hoje, assistindo a um filme novo eu entendi que até quando escolho os novos eu escolho rever...  Na verdade, foi quando acabou e entre as sugestões apareceu “Um passado de presente”: que já revi várias vezes.  E eu entendi tudo que procuro ao rever ou ao escolher.  A honra e a atitude daquele cavaleiro que cativaram a todos.   A pureza de sua visão que resgatou algo em mim a cada vez que revi.

Podem achar piegas o que vou dizer, nunca liguei, e não será agora aos 55, mas é como recarregar.  Recarregar de honra o meu caráter e continuar acreditando nela.  Recarregar de fé a minha mente e prosseguir acreditando.  Recarregar de esperança meu coração e prosseguir lutando contra o mal que há de cair. 

Sim! Eu releio livros! Eu revejo filmes!  Eu preciso reler mil vezes o poderoso Voldemort caindo derrotado, vencido mais pelas verdades ditas por Harry que pelo feitiço do jovem bruxo.

Sim! Eu releio livros!  Eu revejo filmes! Eu preciso rever a Estrela da Morte explodindo antes e depois de o Império contra-atacar.  Eu preciso acreditar que o Império pode ser derrotado quantas vezes for necessário e que o Imperador pode ser arremessado no fosso...

Sim! Eu releio livros!  Eu revejo filmes!  Eu preciso rever o respeito de Gates e Chase pela Constituição, pela Liberdade e pelos verdadeiros valores nela contidos, arriscando tudo, carreira e Liberdade, para impedir a torpeza de Ian Howe que só queria riqueza e poder.

Sim! Eu releio livros!  Eu revejo filmes!  Eu preciso reler o bardo e torcer mais uma vez pra que aquele bilhete chegue pra Romeu... Como todo mundo faz século após século, por mais que seja em vão...

Sim! Eu releio livros!  Eu revejo filmes!  E por mais vil e fraco que eu possa me sentir em alguns momentos, eu preciso almejar ser como o cavaleiro de “Um passado de presente”, que manteve sua honra e seu código – Jamais mudou!!!— independentemente de qualquer mudança que o tempo possa ter trazido ao mundo.

Sim!  Eu releio livros!  Eu revejo filmes!  E prosseguirei relendo e revendo a cada vez que a dúvida e o cansaço tornarem a noite tão longa que a alvorada pareça impossível...

“Treme, perna traidora!

Tremerias mais se soubesses aonde ainda vou te levar hoje!”

Atribuída a Osório, o Legendário, antes da Batalha de Tuiuti.

*       O autor é Infante, mas admira o verdadeiro Cavaleiro!

Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux 
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana 
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas

(Oração de São Bento cuja proteção eu suplico)

 

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 07 Novembro 2025

 

Alex Pipkin, PhD Administração 

Onde chegamos?

Pior: para onde chegaremos?

Zohran Mamdani será o próximo prefeito de Nova York.

Sim, o berço do capitalismo, a antiga vitrine da liberdade econômica e da pujança empreendedora, elegeu um socialista sedutor. O símbolo máximo do mercado agora se curva diante de seu algoz ideológico.

E por quê? Singelo, meu caro Watson. Porque Nova York, partes dos Estados Unidos e o mundo — em especial a nossa republiqueta vermelho, verde e amarela — sucumbiram à sedução das utopias e falácias igualitaristas. O socialismo de boutique, embalado em discursos sobre “justiça social”, venceu não por mérito, mas pelo fracasso do capitalismo adulterado, deformado por décadas de estatismo e intervencionismo.

Em Nova York e em grande parte do globo, o mercado foi trocado pela burocracia, e a liberdade, pelo controle. Regulamenta-se tudo e todos, sufocando a iniciativa, os investimentos e o mérito. O resultado é o mesmo em qualquer latitude, isto é, menos oportunidades, menos empregos, menos prosperidade. O empreendedor é desestimulado, o investidor punido e o cidadão produtivo esmagado sob impostos escorchantes e leis — em especial, trabalhistas para as empresas — contraproducentes.

Nada disso surpreende. A cidade que já foi sinônimo de liberdade transformou-se em laboratório do wokismo, um palco de delírios ideológicos encenados por jovens lobotomizados por professores marxistas e por elites culpadas que tentam expiar privilégios através da autodestruição. O caos político de Cuomo foi apenas o prelúdio.

Como na nossa republiqueta tropical, a violência em Nova York é tratada com condescendência progressista, como se criminosos fossem vítimas inocentes da sociedade. É a inversão moral perfeita, punindo-se os que produzem e desculpando-se os que destroem. Espere o fim dos quatro anos de Mamdani para ver o que restará da cidade que não dorme.

Quanto à violência e ao crime, o economista Nobel Gary Becker já havia desvendado o enigma; o crime é resultado de uma escolha racional. O indivíduo compara custos e benefícios e decide. Quando o Estado afrouxa punições e cultiva impunidade, o crime compensa. Mas os “progressistas do atraso” preferem ignorar a ciência e a realidade, reféns das narrativas morais e de surrados clichês.

A vitória de Mamdani não é um acidente — é um sintoma civilizacional. O mesmo veneno se espalha por várias cidades do Ocidente, alimentado pelo ressentimento e pela ignorância econômica de quem acredita que o Estado pode criar igualdade sem destruir a liberdade.

Como faz falta outros Mileis.

Líderes com coragem, conhecimento e disposição para aplicar o que a ciência econômica e a razão exigem. Milei fez o que precisava ser feito na Argentina. Implementou reformas duras, impopulares, mas inevitáveis — acompanhadas de redes de proteção inteligentes para quem realmente precisa.

Porque não há saída indolor. O remédio é amargo, mas é o único que cura.

Se quisermos evitar novos “casos Mamdani”, o mundo — e especialmente a nossa republiqueta vermelho, verde e amarela — precisará reencontrar urgentemente o que esqueceu.

Urgem coragem moral, lucidez intelectual e as essenciais liberdades econômica e individual.

 

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 06 Novembro 2025

 


Dartagnan da Silva Zanela 

                 Quando vamos avaliar a qualidade de alguma coisa, para constatar se esta tem realmente alguma valia, é imprescindível que o critério utilizado por nós seja claro, substancial e justo. Se não for assim, não tem essa de "mamãe a barriga me dói", porque os juízos advindos da nossa avaliação terão o valor de um vintém furado, e olhe lá.

Quando se procura apresentar a boa qualidade dos resultados de algo, como a educação, as primeiras coisas que são exibidas são números que, muitas vezes, são obtidos de uma forma bastante duvidosa e divulgados de uma maneira um tanto problemática. E assim o é porque se mostram elementos quantitativos como se fossem sinônimos de um dado qualitativo. E sejamos francos: qualquer um que faça isso, bom sujeito não é.

Ainda sobre a forma como esses números são obtidos, é importante indagar sobre os critérios utilizados para nortear a verificação e quais os fins que se pretendem atingir com a utilização deste ou daquele critério.

Ora, se os critérios são claros e os fins a serem alcançados são substanciais, com certeza os elementos quantitativos se tornam uma ferramenta utilíssima para ampliar a base qualitativa. Agora, quando há um desencontro ou um descompasso entre ambos, o que será obtido no frigir dos ovos não será algo realmente bom, pouco importando se estamos com o coração cheinho, até a tampa, de boas intenções.

Creio que um aspecto ilustrativo disso seria o ufanismo que muitas autoridades públicas externam em torno de determinados números, como sendo um símbolo de uma educação de magnificente qualidade. Números esses que, para poderem ser comprovados, necessariamente devem ser confrontados com alguns fatos. Por exemplo: o número de leitores, em nosso país, aumentou ou diminuiu? Entendo. Qual é o tipo de literatura que as pessoas, de um modo geral, costumam ler? Compreendo, mas não entendo. A quantas anda o mercado livreiro nestas terras onde canta o sabiá? Sei. Qual livro você está lendo, agora, neste momento? Hum. Interessante.

Enfim, estes são os frutos de todo esse colóquio flácido de "educação de qualidade", "pedagogias ativas", "nativos digitais" e companhia limitada. E por essas e outras que recomendo o livro "Faça-os ler - para não criar cretinos digitais", do neurocientista Michel Desmurget, cujas lições são de grande valia para a educação dos infantes e, principalmente, para a correção das falhas da nossa [falta de] educação.
*          O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO", entre outros livros.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 06 Novembro 2025

 

Gilberto Simões Pires

 

LULA SOLIDÁRIO

Nem mesmo o fato de ter sancionado uma lei que transfere a capital do Brasil para Belém durante a badalada COP30, que inicia no próximo dia 11 de novembro e vai até o dia 21, conseguiu fazer com que o presidente Lula deixasse de viajar para a Colômbia, onde vai acontecer na cidade de Santa Marta, nos dias 10 e 11 de novembro, a reunião de Cúpula da CELAC-UE - Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e da União Europeia.  A -REPENTINA DECISÃO- tem como único e grande motivo PRESTAR TOTAL APOIO E IRRESTRITA SOLIDARIEDADE AO DILETO AMIGO NICOLAS MADURO, presidente-tirano da Venezuela. 

MENTIROSAMENTE

Sem causar mínima surpresa, o presidente Lula e seu fantástico grupo de DEFENSORES DAS ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS, tidas e havidas em vários países como -ORGANIZAÇÕES NARCOTERRORISTAS-, vivem pregando, MENTIROSAMENTE, que a posição da nossa política externa é de que a América Latina e sobretudo a América do Sul, são uma REGIÃO DE PAZ E COOPERAÇÃO, como afirmou, ontem, o sinistro-ministro Mauro Vieira, das Relações Exteriores. 

 PESQUISA ATLAS/INTEL

A título de melhor esclarecimento, a MAIORIA DOS LATINO-AMERICANOS APOIA UMA EVENTUAL INTERVENÇÃO DOS EUA NA VENEZUELA, como bem informa a recente e pra lá de importante pesquisa divulgada pela ATLAS/INTEL em parceria com a Bloomberg. Segundo o levantamento, 53% apoiam uma AÇÃO MILITAR no país sob o comando de MADURO, enquanto outros 34,7% reprovam. A maior parte dos entrevistados também demonstrou preocupação com a situação política e social na VENEZULEA, envolvendo fraude nas eleições, pobreza, migração em massa, violação dos direitos humanos e prisão de opositores, entre outros aspectos.

NARCO-ESTADO

Mais: cerca de 67% acreditam que MADURO é o principal responsável pela crise humanitária que resultou na migração de mais de oito milhões de pessoas, o que representa um quarto da população do país. A pesquisa indicou ainda a preocupação com a fraude eleitoral e a percepção - para 73,2% - de que a Venezuela é uma DITADURA EM PROCESSO DE SE TORNAR UM NARCO-ESTADO. 

É ESSA A PAZ E COOPERAÇÃO QUE LULA DEFENDE????

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  • Adriano Alves-Marreiros
  • 02 Novembro 2025

Adriano Alves-Marreiros

          (Esta semana, precisamos trazer de volta esta crônica: Mais atual que nunca!!!  Do saudoso Tribuna Diária...)

“– Ah, a música – disse Dumbledore, secando os olhos. – Uma mágica que transcende todas que fazemos aqui!”

J.K. Rowling

Prosseguimos com nossa série de artigos de inspiração na Música.  Com uma abordagem crítica da bandidolatria, do coitadismo penal e expondo a guerra cultural, passamos, agora, à famosa “O meu guri”.  Embora muitos vislumbrem a obra como um relato de alienação, da mãe que estaria cega por amor ao filho e nada vê, vamos mostrar uma análise bem mais... desagradável do assunto.

Chico Buarque foi um grande autor como uma imensa produção de obras primas – mesmo sendo um autor muito ideológico, já que a forma prevalece na análise da qualidade lírica – e boa parte dessas obras é essencialmente de cunho político com uma visão extremamente parcial. A que abordaremos é claro instrumento de atuação na guerra cultural, neste caso, romantizando o bandido e justificando seus crimes.  Claro: vai parecer que algumas coisas são repetições do artigo anterior (faroeste caboclo)[1], mas devo explicar a você – são mesmo!!!  Esta música não foge da proposta anterior: se “Maria Lúcia era uma menina linda, o coração dele pra ela o santo Cristo prometeu” e fomos manipulados pela redenção do bandido por meio da paixão homem-mulher, neste nos manipularão por meio da nossa sensibilidade ao amor de mãe.

Enfim, a música perdeu muito quando Chico perdeu a mão há uns 30 anos: nestas 3 décadas mais recentes pouco produziu de relevante, exceto opiniões políticas também baseadas na ficção.

O meu guri: tentando romantizar a figura do criminoso, Chico acaba escancarando o cinismo da mãe de bandido...

Nos anos 80, época em que essa música foi lançada, havia muita filosofia e esoterismo circulando em todos os círculos: na maior parte de origem duvidosa ou distorcida.  Lembro que que disseram que a de Lao Tsé – o TAO— pregava que “Antes de se estudar o Tao o mar é mar e a montanha é montanha. Quando se está estudando o Tao, o mar deixa de ser mar e a montanha deixa de ser montanha. Mas quando se conclui o estudo: o mar volta a ser mar e a montanha volta a ser montanha”.  Pode até ser falsificação barata e Lao jamais ter dito isso, mas o fato é que isso aconteceu comigo quanto a essa música: primeiro achei que era uma defesa cínica dos bandidos, apelando para o sentimentalismo.  Depois achei que era apenas a expressão da ingenuidade da mãe, cega por seu amor. Mas finalmente vi que era mesmo uma defesa cínica dos bandidos: e no contexto da guerra cultural, tentando se aproveitar do amor do brasileiro por um coitadinho...

Claro que a narração tinha que ser genialmente em primeira pessoa, para obrigar você a se colocar no lugar dela, e  tinha que se começar pelas dificuldades da mãe solteira (já que “Não era o momento dele rebentar” e que ele “já foi nascendo com cara de fome”.  Isso já nos induzindo a lembrar que sua vida foi difícil desde o nascimento e que apenas isso foi a causa invencível de sua vida dedicada ao crime, apesar do que já dissemos no artigo  anterior sobre vizinhos na mesma situação, parentes, e tantas outras pessoas filhas de mães solteiras e que são trabalhadores honestos.  Aliás, a própria narradora (a mãe) nada fala sobre ter praticado assaltos e outros crimes para criá-lo.

Na “filosofia” de R$ 1,99[2] anos 80, é claro que teremos uma “pérola de otimismo”[3] dele, do “meu guri” , que “um dia me disse que chegava lá”.  Vejamos, então, até onde Chico pretende chegar para nos convencer que somos culpados da opção do “meu guri” pelo crime.

Claro que o criminoso é um trabalhador que “chega suado e veloz do batente”, ganhando o pão com o suor do seu rosto, aliás, não só o pão, mas também “Tanta corrente de ouro, seu moço, que haja pescoço pra enfiar” sugerindo que provavelmente outras pessoas também suaram: suaram frio com o “trabalho” do “meu guri”.  Aliás, é justamente a partir de alguns frutos de seu trabalho – “Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro, chave, caderneta, terço e patuá, um lenço e uma penca de documentos, pra finalmente eu me identificar” que não restam dúvidas de que a mãe não era  “cega de amor a ponto de não ver o óbvio”, como o personagem Tavares do Jô Soares[4], a coisa se torna tão evidente que temos que dar à coisa o seu nome: CINISMO! O mesmo cinismo que gera aquelas entrevistas em que mães e parentes de traficantes, assassinos, membros de facções criminosas e corruptos sempre exaltam seus filhos como trabalhadores honestos injustamente presos pela polícia “opressora” ou perseguidos pelos “malignos” membros do Ministério Público e Juízes “fascistas” mancomunados.

E mostrando que é um trabalhador incansável e que diversifica, “Chega no morro com o carregamento, pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador”.  A vida é dura e não se pode perder oportunidades, mesmo quando isso significa que a vida é ainda mais dura pra quem “perdeu, play”: as vítimas de seus crimes, se é que eles ainda têm vida... 

Prosseguindo no cinismo, ela quer que você pense que sua cegueira deliberada seria alienação, e busca demonstrar preocupação e fé dizendo “Rezo até ele chegar cá no alto, essa onda de assaltos tá um horror”.  Reforçando o cinismo já comprovado antes e que não se importa com as pessoas prejudicadas pelo seu filho bandido: só com “meu guri”.

Aí, pra deixar você ainda mais próximo e comovido com a atitude e a profunda humanidade de um bom filho, ela te romantiza: “Eu consolo ele, ele me consola, boto ele no colo pra ele me ninar”, só esquecendo de falar de tantas mães que não podem mais consolar nem ser consoladas pelos filhos por causa de guris como o “o meu guri”.  Mas elas não importam, nem meros números são, pois não fazem estatísticas com mães e pais de vítimas...  Ela, sim é que é merecedora de todos os direitos, da atenção de ONGs, de ativistas, de “garantistas”, pois é mãe de um batalhador, que vai cedo labutar, como ela relata: “De repente acordo, olho pro lado e o danado já foi trabalhar, olha aí”.  Que importa se, no dia seguinte de cada labuta de seu guri, OUTRA MÃE ACORDA, OLHA PRO LADO E FILHO DELA JÁ NÃO TÁ MAIS LÁ, OLHA AÍ...

 Levando a dramaticidade ao ponto máximo, chegamos ao epílogo quando ele “Chega estampado, manchete, retrato, com venda nos olhos, legenda e as iniciais” referindo-se à barrinha preta que colocavam na foto do jornal para não expor o rosto de um “di menor” e às iniciais para não revelar o nome.  Aí, claro que ela que ela vai reclamar das pessoas que estão criticando ou falando daquela prisão, já que, ela só vê motivo de orgulho, já que ela não se importa com mais ninguém, não se importa com a maldade de seu filho: “O guri no mato, acho que tá rindo, acho que tá lindo de papo pro ar”.  Há quem ache que esses versos significariam que o bandido morreu e que a alienação da mãe, com a dor da perda,  ter-se-ia tornado total, mas entendemos que é orgulho mesmo, já que ele apareceu no jornal, que seu “papo pro ar” seria aquela pose arrogante de bandido convicto de que “não vai dá nada porque  sô di menor” e até porque para chegar a ponto de sua prisão aparecer na manchete do jornal, é porque ele se tornou uma bandido muito procurado e com hierarquia alta no crime... É como ela diz “Desde o começo, eu não disse, seu moço, ele disse que chegava lá”.

É, olha aí, olha “o meu guri, olha aí” porque o seu guri, vítima dele, você não vai poder olhar mais: nunca mais...

Algumas pessoas vivem cheias de EUforia,

Todas as outras vivem cheias dos egoístas

(Millôr Fernandes)

 

Agradeço à Fernanda, minha mulher, por algumas sugestões essenciais para o estilo. (te amo!)

Agora vou ouvir a música...

Adriano Alves-Marreiros é alguém que detesta cinismo...

 

[1] face

[2] Muito antes das lojas de 1,99, e nem real era: era Cruzeiro.

[3] Daria um ótimo nome de livro de autoajuda (outro ajuda?) dos anos 8º, se é que não deu...

[4]

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