Dagoberto Lima Godoy
A decisão do governo americano de proibir o acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados de Inteligência Artificial da Anthropic é mais um sinal de que a inteligência artificial deixou definitivamente o campo da livre competição tecnológica para ingressar no território da segurança nacional, da disputa estratégica e da realpolitik.
À primeira vista, há uma contradição evidente. Os Estados Unidos, que fizeram da livre iniciativa uma de suas bandeiras históricas, intervêm agora diretamente na atividade de uma empresa privada, limitando clientes, usuários e até funcionários estrangeiros. O mercado, nesse caso, deixa de ser soberano. A inovação não circula mais segundo a lógica da concorrência, mas segundo a lógica do Estado.
Essa contradição, porém, não é nova. Sempre que uma tecnologia — ou mesmo um conhecimento decisivo — se aproxima do núcleo do poder, a liberdade econômica e científica cede espaço ao interesse estratégico. Foi assim com a própria teoria física que tornaria possível a bomba atômica. O segredo militar não incidiu apenas sobre objetos, máquinas ou materiais; incidiu também sobre fórmulas, pesquisas, cérebros e laboratórios.
A diferença é que agora o objeto da contenção não é uma bomba, um míssil, um chip ou um reator. É um modelo de inteligência artificial: uma capacidade imaterial, replicável, evolutiva e potencialmente acessível a partir de qualquer lugar do mundo.
O argumento oficial é o risco de uso indevido, em operações cibernéticas, manipulação informacional e muito mais. E o pano de fundo é a disputa entre Estados Unidos e China. De um lado, uma ordem liberal, ainda que cada vez mais defensiva, baseada em empresas privadas, inovação descentralizada, circulação de capitais e hegemonia tecnológica ocidental. De outro, um modelo de capitalismo estatal, disciplinado pelo Partido Comunista Chinês, no qual empresas, universidades, plataformas digitais e planejamento industrial se integram a um projeto nacional de poder.
A IA tornou-se o território decisivo desse confronto: quem liderar essa tecnologia ganhará vantagem em ciência, defesa, indústria, educação, vigilância, logística e guerra informacional. Por isso, a medida americana é compreensível em termos de realpolitik. Nenhuma potência entrega voluntariamente ao rival uma ferramenta capaz de alterar o equilíbrio global. Nesse sentido, Trump não age apenas como adversário da livre iniciativa; age como representante de um Estado que percebe a IA como ativo estratégico decisivo.
Mas o risco é evidente. Quando tudo passa a ser segurança nacional, a exceção pode virar regra. A proteção legítima pode degenerar em protecionismo. A defesa da vantagem tecnológica pode comprometer a própria abertura que tornou os Estados Unidos líderes em inovação. Além disso, restrições excessivas podem acelerar o esforço chinês de autossuficiência, consolidando dois ecossistemas tecnológicos rivais, fechados e incompatíveis.
O episódio da Anthropic mostra que a nova guerra fria alcança o território da inteligência artificial e o seu efeito disruptor, ainda inimaginável: a IA capaz de reorganizar ciência, economia, cultura, defesa, educação e até a própria relação entre homem, máquina e poder.
Aí está o novo contorno do conflito. As democracias liberais querem preservar mercados abertos, mas descobrem que a abertura, quando assimétrica, pode fortalecer adversários que não jogam segundo as mesmas regras. Ao mesmo tempo, quanto mais recorrem ao fechamento, mais se afastam de seus próprios princípios fundadores.
A inteligência artificial, afinal, não é apenas uma tecnologia: é uma forma emergente de poder. E, quando o poder está em jogo, a livre iniciativa raramente fica sozinha no comando.
* O autor, Dagoberto Lima Godoy, é Engenheiro Civil
Claudio Apolinario
Toda promessa fácil tem uma conta difícil. E quem paga é sempre o mesmo.
Todo governo populista começa da mesma forma.
Uma crise real. Um líder que diz ter a solução. Promessas de que o Estado vai resolver o que não foi resolvido. Assim que toma posse o governo começa a gastar mais. Cria benefícios. Controla preços. Subsidia combustível, energia, alimento. E nos primeiros meses, parece estar funcionando.
As pessoas sentem no bolso. A sensação é boa. O governo fica popular.
O problema não é o começo. É o que vem depois.
Pesquisadores que estudaram o histórico de países que seguiram esse caminho identificaram um padrão que se repete com uma regularidade quase chata. Primeiro, o governo gasta mais do que arrecada e a economia aquece. Segundo, a popularidade sobe e o governo se reelege. Terceiro, a conta começa a chegar. A inflação sobe. Os preços que o governo tentou segurar não aguentam mais. O déficit cresce. O governo responde com mais controle, mais subsídio, mais intervenção. Quarto, o colapso. O ajuste que não foi feito antes precisa ser feito agora, de forma mais dura, com mais custo para todo mundo.
E então o ciclo recomeça. O governo seguinte herda a bagunça, aplica o remédio amargo, perde a eleição. O populismo volta com a mesma promessa de que dessa vez vai ser diferente.
O mecanismo funciona por um motivo simples: a promessa chega antes da eleição. O custo chega depois. E quem colhe os benefícios nem sempre é quem paga a conta.
Quem paga é o trabalhador com salário comido pela inflação. O empresário que não consegue crédito porque o governo ocupou todo o espaço. O aposentado cujo benefício compra menos a cada mês. O jovem que entra num mercado de trabalho encolhido depois de anos de contas mal feitas.
O populismo não é generoso com os pobres. É generoso com quem está no poder. Que usa o dinheiro dos pobres para financiar a popularidade que garante a permanência no poder.
Quem acompanha a história da América Latina conhece esse filme. A Argentina entrou em colapso econômico várias vezes seguindo essa lógica. A Venezuela destruiu uma das economias mais ricas do continente em menos de vinte anos. O Brasil tem seu próprio registro, com períodos de gasto acima do que podia e ajustes posteriores que apagaram os ganhos e deixaram a dívida maior do que antes.
Em todas essas situações, o roteiro foi o mesmo. O governo que gastou além da conta culpou o mercado, os bancos, a oposição e o cenário internacional. Nunca assumiu que o problema era a conta que não fechava desde o começo.
Já vi isso de perto. Propostas que prometiam muito sem dizer de onde viria o dinheiro eram aplaudidas. Propostas que explicavam o custo real eram ignoradas. A plateia preferia ouvir a parte boa. E o político que dizia a verdade tinha mais chance de perder do que de ganhar.
Isso não é fatalidade. É escolha.
A saída começa pela pergunta que raramente é feita antes do voto: quem vai pagar essa conta? Toda promessa de benefício sem fonte de financiamento clara é uma promessa que alguém vai pagar depois. E esse alguém é sempre o contribuinte, que financia o Estado que prometeu mais do que podia entregar.
O populismo sobrevive porque o eleitor permite. Quando a maioria das pessoas passar a exigir resposta para "de onde vem o dinheiro?" antes de aplaudir qualquer promessa, o cálculo político muda.
Enquanto isso não acontecer, a conta vai continuar chegando na hora menos conveniente.
Quem já entende esse mecanismo tem uma responsabilidade que vai além do próprio voto. É explicar para quem ainda não entendeu. É ser a pessoa que faz a pergunta certa na hora certa. É quem se dispõe a influenciar.
Populismo sobrevive no silêncio de quem sabe e não fala.
E quem paga a conta, como sempre, não é quem prometeu.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.
Dagoberto Lima Godoy
O Brasil parece disposto a regular a inteligência artificial antes mesmo de compreender bem do que se trata. Em nome da proteção de direitos, da segurança e da transparência, uma nova camada de controle sobre o ambiente digital avança no Congresso e no Executivo. A intenção declarada é nobre, como quase sempre é. Mas a história ensina que o poder raramente se expande confessando seus verdadeiros apetites. O Leviatã moderno não se apresenta como tirano, mas como tutor.
A inteligência artificial é a inovação mais decisiva de nosso tempo — talvez de todos os tempos. Ela afetará a produtividade, a ciência, a indústria, a educação, a saúde, a defesa, a administração pública e será decisiva para a competitividade internacional. O país que souber usá-la ganhará velocidade; o que a constranger — por medo, burocracia ou suspeita — ficará para trás.
É claro que há riscos: fraude, manipulação, violação de intimidade, discriminação, abuso de dados e vigilância indevida. Mas a resposta não pode ser transformar a inovação em território vigiado, submetido a conceitos vagos como “alto risco”, “impacto sistêmico”, “uso responsável” ou “falha sistêmica”, entregues à interpretação de burocracias reguladoras.
A norma vaga é o instrumento preferido do Estado sedento de poder. Ela não proíbe claramente; intimida. Não censura diretamente; induz à autocensura. Não impede a inovação por decreto; torna-a cara, arriscada e juridicamente insegura.
O resultado é previsível. Plataformas e empresas passam a remover conteúdos, bloquear experiências e evitar riscos antes mesmo de qualquer ordem estatal. Ao mesmo tempo, os grandes grupos saem fortalecidos, pois têm departamentos jurídicos, equipes de compliance e acesso permanente ao Estado. Já startups, pesquisadores, pequenas empresas e empreendedores locais são empurrados para fora do jogo.
Assim, uma regulação apresentada como defesa da sociedade pode acabar concentrando mercado, sufocando a inovação nacional e aumentando a dependência de plataformas estrangeiras. O Estado diz proteger o cidadão, mas termina protegendo os gigantes e constrangendo os pequenos.
Não se trata de defender uma terra sem leis. O Brasil já as tem até em excesso, embora muitas vezes desconsideradas até por quem existe para por elas zelar. O que se contesta é a criação sucessiva de novas estruturas administrativas, com sanções, relatórios, deveres genéricos e crescente margem de intervenção política.
A inteligência artificial precisa de responsabilidade, mas precisa, sobretudo, de liberdade. Sem liberdade, não há ciência viva, mercado dinâmico nem criatividade transformadora. O perigo não está apenas nos abusos da IA, mas na tentação de usar esses abusos como pretexto para domesticar a inteligência humana.
* O autor, Dagoberto Lima Godoy, é egenheiro civil.
Gilberto Simões Pires
ANO DE ELEIÇÃO
Em ano de eleição, mais do que sabido, a parcela de eleitores -DOTADOS DE DISCERNIMENTO- se propõem a identificar e escolher candidatos que tenham como real propósito -DEFENDER A LIBERDADE, REDUZIR A CARGA TRIBUTÁRIA, DIMINUIR OS GASTOS PÚBLICOS E COMBATER A CORRUPÇÃO-. Entretanto, a considerar que parte significativa dos eleitores, lamentavelmente, são DESPROVIDOS DE DISCERNIMENTO, esse contingente acaba sendo seduzido por candidatos POPULISTAS, o que RESULTA, caso venham a ser eleitos ou reeleitos, em evidente MANUTENÇÃO E/OU CRESCIMENTO DA CORRUPÇÃO, AUMENTO DOS ROMBOS NAS CONTAS PÚBLICAS E, POR CONSEQUÊNCIA ÓBVIA, EM AUMENTOS DE IMPOSTOS.
IMPOSTO DO PECADO
Pois, mesmo que a vontade dos ELEITORES -DOTADOS DE DISCERNIMENTO- venha a superar EM NÚMERO DE VOTOS, a vontade dos ELEITORES DESPROVIDOS DE DISCERNIMENTO, elegendo candidatos que, por exemplo, se DISPONHAM a REDUZIR A ELEVADÍSSIMA CARGA TRIBUTÁRIA, faz-se necessário que todos entendam que, independentemente de quem seja ELEITO PRESIDENTE DO BRASIL, o FATO é que, a partir de 1.º DE JANEIRO DE 2027, entrará em vigor o -IMPOSTO DO PECADO-, que INCIDIRÁ SOBRE ALGUNS PRODUTOS -SELETIVOS- ESCOLHIDOS PELO PRESIDENTE LULA-POPULISTA- com o claro propósito de ASSALTAR OS CONSUMIDORES DO NOSSO EMPOBRECIDO BRASIL.
LISTA DOS PRODUTOS CONSIDERADOS PECADOS
Para quem não sabe, ou não lembra, o IMPOSTO DO PECADO foi aprovado no âmbito da REFORMA TRIBUTÁRIA. E como determina a LEI, o referido IMPOSTO -SOBRE O CONSUMO- COMEÇA EM 2027 e tem o objetivo de ENCARECER PRODUTOS OU ATIVIDADES QUE -CAUSAM DANOS À SAÚDE OU AO MEIO AMBIENTE. Atenção: a lista inclui BEBIDAS ALCOÓLICAS, REFRIGERANTES E CIGARROS e sobre ALGUNS VEÍCULOS -conforme o nível de poluição-, sobre a EXTRAÇÃO DE BENS MINERAIS e sobre LOTERIAS, APOSTAS E JOGOS DE FANTASY SPORTS. Ou seja, JUSTAMENTE AOS PRODUTOS QUE JÁ SÃO ALTAMENTE TRIBUTADOS. Que tal?
ALÍQUOTAS
Até o final deste ano o Congresso Nacional deverá APROVAR APENAS A REGULAMENTAÇÃO, pois o IMPOSTO DO PECADO JÁ ESTÁ GARANTIDO. Concluída esta tarefa, o presidente LULA POPULISTA irá INFORMAR, com enorme prazer, as ALÍQUOTAS QUE PASSARÃO A INCIDIR SOBRE OS PRODUTOS PECADORES. Viva!!!
Dartagnan da Silva Zanela
É curioso ver que na arena do poder — e fora dela também — muitíssimas pessoas se esforçam para mostrar para todo mundo, menos para Deus, que são pessoas de valor e não sujeitinhos cuja dignidade tem um preço, sempre devidamente atualizado e corrigido pela inflação.
E o que mais chama a atenção é que, quanto mais essas figuras, figurinhas e figurões tentam provar que são criaturas de alma ilibada, mais se enrolam nos próprios pés.
Na verdade, todos nós, em algum momento de nossas vidas, acabamos por cair nesse tipo de esparrela e terminamos por pagar aquele mico existencial nada original de querer posar de detentores de uma dignidade que não nos pertence.
Bem, noves fora zero, há um momento em que todos nós podemos ver com clareza de que material é feito o nosso caráter e qual é a têmpera de nossa alma: é quando estamos diante da morte; da nossa morte.
É quando estamos frente à possibilidade de ficarmos cara a cara com ela que realmente iremos descobrir qual é a envergadura do nosso caráter e a solidez da nossa personalidade.
A título de exemplo, há no prefácio do livro "A sabedoria das leis eternas", do filósofo Mário Ferreira dos Santos, uma descrição sobre os últimos momentos da sua vida que foi narrada por uma de suas filhas.
Contava ela que, quando seu pai estava para partir, pediu aos seus genros que o levantassem do leito porque, segundo ele, um homem deve morrer em pé. Os genros atenderam ao seu pedido e ele, ereto, recitou um Pai-Nosso e morreu.
Morreu da mesma forma que sempre viveu: sendo um filósofo e, como tal, ensinando com destemor a filosofar com suas palavras e, principalmente, com o seu modo de ser.
Sócrates, nos diálogos platônicos, ensinava — com a clareza de uma noite de lua cheia — que filosofar é aprender a morrer, e que aprender a morrer nada mais seria do que aprender a viver verdadeiramente, esforçando-se para realizar plenamente as suas potencialidades e, desta forma, ir lapidando a sua humanidade.
E imagino eu que, por essa razão, ele dizia que uma vida irrefletida seria indigna de ser vivida, do mesmo modo que palavras ditas de forma impensada não mereceriam ser ouvidas.
Dito de outra forma, podemos afirmar que cada um de nós, quando vem a esse mundo, traz um ser em forma bruta que necessita ser cinzelado para tomar a forma potencial que se encontra latente em nossa crueza demasiadamente humana.
Porém, diferentemente de uma estátua de Michelangelo, muitas são as mãos que deixam suas cinzeladas na matéria bruta do nosso ser: nossa família, nossos colegas e amigos, a comunidade, a sociedade, as religiões, as ideologias, a mídia e tutti quanti.
Contudo, independentemente das marcas que foram deixadas por esses inúmeros artífices, há um momento em que somos nós que devemos assumir a obra, para nos tornarmos indivíduos autônomos, capazes de lutar com unhas e dentes para não sermos reduzidos a uma reles figura autômata, que tem seu passo marcado pelo ritmo oco e estridente das forças que nos circundam.
E esse momento decisivo é quando compreendemos que devemos meditar frequentemente a respeito da nossa morte para, no final, entendermos que não se deve temer o nosso destino derradeiro neste vale de lágrimas, mas sim tremer diante da possibilidade de morrermos fazendo o que é errado perante as leis eternas.
É diante desse questionamento que se revelam os homens de valor e o valor de cada homem. O resto, meu amigo, é apenas conversa publicitária.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS", entre outros livros.
Claudio Apolinario
Por que boa parte dos eleitores que dizem querer mudança votam para que tudo fique igual.
Existe uma conversa que se repete em todo ciclo eleitoral no Brasil. O eleitor reclama dos políticos. Diz que são todos iguais. Que não prestam. Que o país só piora. Diz nas rodas de conversa estar decepcionado, mas vai às urnas e vota no mesmo de sempre. Não por ingenuidade. Por escolha. Uma escolha que tem sempre um motivo.
Uma pesquisa do Ipea com vereadores em doze municípios chegou a uma conclusão simples: o candidato se adapta ao que o eleitor aceita. Se o eleitor troca o voto por favores, o candidato oferece favores. Onde o eleitor não topa essa troca, o candidato muda a estratégia.
O eleitor molda o candidato. Não o contrário.
O clientelismo funciona de forma simples. O candidato não promete transformar a cidade. Promete resolver o problema imediato do eleitor. Consertar a rua da frente. Conseguir uma consulta médica. Liberar um benefício. Intermediar um alvará. É uma troca direta, concreta e imediata — muito diferente da proposta de um candidato que fala em mudanças que melhoram a cidade para todo mundo.
No momento da escolha, o imediatismo vence o longo prazo — quase sempre.
E aqui está o ponto que o eleitor precisa encarar sem conforto: cada voto trocado por um favor particular é um voto contra a reforma que tornaria aquele favor desnecessário. É votar naquilo que o eleitor mesmo reclama. É dar ao sistema exatamente o combustível que ele precisa para continuar. É votar pela continuidade do problema que gerou a necessidade da troca.
O favor de hoje tem um preço. E ele é pago em impostos. Em serviços públicos ruins. Em dinheiro público gasto para agradar quem elegeu, não para resolver o que mais precisa. O eleitor que aceita o favor está financiando, com seu próprio imposto, o sistema que o mantém dependente do próximo favor.
Isso é clientelismo. E ele é caro.
Já presenciamos disputas em que candidatos com histórico limpo, propostas sérias e argumentos sólidos perderam para candidatos com máquina montada, distribuição de benefícios e promessas localizadas. Não perderam por desonestidade do eleitor. Perderam porque ofereciam algo difícil de sentir antes do voto — o longo prazo — contra algo fácil de ver agora — o favor do curto prazo.
O voto é uma decisão tomada no presente, com consequências que chegam depois.
O problema não é apenas ético. O problema vai além do certo e errado. Um eleitorado que vota por um favor cria um ambiente onde o bom candidato, para competir, precisa montar uma máquina parecida e aceitar a lógica da troca. Os que se recusam a fazer isso perdem. Os que fazem comprometem exatamente o que os tornava diferentes.
É uma armadilha que o eleitor ajuda a construir toda vez que aceita a troca.
A saída é mais simples do que parece — mas exige uma decisão que o candidato não pode tomar pelo eleitor. Antes de votar, perguntar o que foi entregue, não o que foi prometido. Comparar histórico com discurso. Recusar o favor quando ele vem com um preço embutido. E entender que o candidato que distribui benefícios na campanha vai precisar de orçamento para pagar essa conta depois de eleito — e esse orçamento é pago pelo próprio eleitor.
Bons candidatos perdem quando o eleitor decide que o favor de hoje vale mais do que a cidade, o estado e o país que poderia ter amanhã.
A mudança começa quando o eleitor vota com consciência. Não por troca de favores.
Este é um ciclo que só o eleitor pode quebrar.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.