Valdemar Munaro
Nenhuma atividade intelectual registrada na história, foi tão eficazmente perversa quanto a desenvolvida e arquitetada pelo prussiano Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831). Sua raiz e seu desfecho, regados de idealismo até os dentes, tornou-se o útero de todos os historicismos, culturalismos e marxismos contemporâneos.
O enredo racionalista que esse idealismo desenvolve, é sutil e malandro, fabricante de ruínas mentais incomensuráveis. Difícil rastrear alguma edificação científica positiva vinda da filosofia hegeliana. Se algum leitor, porventura, tiver acesso e coragem para manusear pacientemente a principal obra idealista, 'Fenomenologia do Espírito', terá oportunidade de experimentar quanto é possível se baratinar e se enlouquecer. A trama racional que dentro do idealismo se descortina é narcisista e megalomaníaca, um labirinto de raciocínios enleados nas teias do próprio pensamento e das ensimesmadas argumentações.
O ego dialético e político de Hegel é a fonte de onde vem a inspiração visceral que gerou o marxismo. KarL Marx (1818 – 1883), foi um fiel discípulo hegeliano, não negou a dificuldade para entender a 'Fenomenologia do Espírito', mas encontrou um jeito para encará-la: leu-a, estudou-a e meditou-a, pausadamente, diversas vezes (mais de nove) para torná-la bíblia de sua ideologia.
Surpreende observar estudiosos da envergadura de Xavier Zubiri, Charles Taylor e Jean Hyppolite ignorarem as consequências abusivas e alucinantes do hegelianismo. Ocorre que todo hegeliano, dificilmente se reconhecerá como tal e, achando-se no correto, só consegue ver o que quer. Etienne Gilson (1884 – 1978), com propriedade, advertiu aspirantes a filósofos para que se abstivessem de tais idealismos, pois eles jamais levam o protagonista ao encontro do mundo real. Todo filósofo que inicia seu caminho filosófico no e pelo pensamento e não no e pelo ser, não sairá jamais de dentro dele. Permanecerá para sempre idealista e hegeliano.
Hegel é um filósofo iluminista sedutor, um pensador que dividiu ao meio a história da filosofia e da política. Se sua doutrina, de fato, corresponder ao que é a vida real, então o saber humano já concluiu o seu ciclo. Mas, se sua doutrina for um amontoado de jargões e blá blá blás mentais, então, é preciso denunciar a loucura e malversação que essa filosofia causa à ordem intelectual.
O êxito de Hegel, disse o austríaco K. Popper, "marcou o começo da 'era da desonestidade' (como denomina Schopenhauer...), da 'era da irresponsabilidade' (como K. Heiden caracteriza a era do totalitarismo moderno); primeiramente, da irresponsabilidade intelectual, e mais tarde, como uma de suas consequências, da irresponsabilidade moral; o começo de uma nova era controlada pela magia das palavras altissonantes e pela força do jargão".
Hegel conseguiu, com sua retórica, embriagar as mentes de seus leitores com seu suposto 'saber absoluto' e sua divinização do Estado. Seus textos estão repletos de expressões tais como: "O Universal se encontra no Estado... O Estado é a ideia divina tal como existe na terra... Devemos, portanto, adorar o Estado como a manifestação do Divino sobre a terra, e considerar que, se é difícil compreender a Natureza, infinitamente mais árduo será apreender a Essência do Estado... O Estado é a marcha de Deus pelo mundo... O Estado deve ser compreendido como um organismo... Ao Estado completo pertencem, essencialmente, a consciência e o pensamento... O Estado sabe o que quer... O Estado é real; ... a verdadeira realidade é necessária. O que é real é eternamente necessário.... O Estado existe... em razão de si mesmo... O Estado é o que efetivamente existe, a vida moral realizada".
Enquanto ainda residia em Jena, no dia 13 de outubro de 1806, data em que terminou de escrever sua 'Fenomenologia do Espírito', Hegel viu de perto e fisicamente a figura de Napoleão Bonaparte, imponente e poderoso, rompendo as portas da cidade, recolhendo butins e declarando o fim do Sacro Império Germânico.
Hegel 'amava' os ideais da Revolução Francesa, muito embora não apreciasse o jeito de ser dos franceses. Ao ver, impressionado, o general revolucionário em pessoa, enxergou a encarnação histórica do espírito, a personificação do Estado. Na sua intimidade, projetou, simbolicamente, o mesmo ideal para sua Prússia então acuada e encolhida.
Com a publicação de textos teológicos e políticos, Hegel atraiu a atenção de Frederico Guilherme II, rei da Prússia. Recebeu dele o emprego para ser professor de filosofia na recém fundada Universidade de Berlim. Aqui, com solucionados problemas econômicos particulares, exerceu seu melhor ofício: eletrizar alunos e ouvintes com sua dialética e oratória. Até mesmo oficiais de governo acorriam para ouvi-lo.
Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), contemporâneo e algoz opositor, referiu-se a Hegel como um inaugurador das desonestidades intelectuais, um charlatão, fomentador de verborreias e obscurantismos. Entre as auréolas professorais que se descortinavam, A. Schopenhauer afirma: "sub entraram-se na filosofia alemã, aos conceitos límpidos e às honestas pesquisas, a 'intuição intelectual' e 'o pensamento absoluto'; impressionar, estontear, mistificar, jogar, com mil truques, pó nos olhos do leitor, tornaram-se o método, e o discurso é guiado pela intenção mais que pela intuição. Por isso, a filosofia, se ainda se pode chamá-la assim, precisou descer e descerá ainda mais até chegar ao último degrau da humilhação com Hegel, criatura ministerial: este, para sufocar uma vez mais a liberdade de pensamento conquistada por Kant, fez da filosofia, filha da razão e futura mãe da verdade, um instrumento, para fins políticos...; mas, para velar a vergonha e atuar a um tempo a máxima estupidificação dos cérebros, estendeu o manto das conversas fiadas mais vazias e da mais absurda verbosidade que jamais se ouviu, ao menos fora do manicômio" (cfr. A liberdade do querer humano).
Como se vê, segundo Schopenhauer, Hegel ensinou a seus pósteros como fazer da ciência e da universidade, capachos de regimes políticos totalitários. A honestidade, virtude essencial da pesquisa e do estudo de quaisquer assuntos, foi jogada às traças para corromper descaradamente as ciências e as instituições.
Na galeria dos falsos profetas elencados por K. Popper, estão Platão, Hegel e Marx. Estes, corroborados por seus asseclas, são, segundo Popper, mentores intelectuais responsáveis pelos arquipélagos e campos de extermínio contemporâneos que mataram milhões de vidas humanas.
Também o dinamarquês, S. Kierkegaard (1813 – 1855), denunciou veementemente a doutrina de Hegel como uma das maiores inimigas do cristianismo. Ao se referir a Cristo, Hegel o considera apenas como uma feliz junção do divino com o humano na história e não como o Filho de Deus Encarnado.
Ainda, segundo Kierkegaard, Hegel se faz inimigo da subjetividade humana por promover uma filosofia que despreza tudo o que pertence à vida singular e particular das pessoas. No entanto, conforme Kierkegaard, a verdade se revela sempre essencialmente subjetiva e individual. Não são as multidões que sofrem ou morrem, mas os indivíduos singularmente existentes.
Antissemita e, por fim, eugenista e racista, Hegel tratou com cinismo e desdém a história judaica, um povo bíblico, segundo ele, trágico e espiritualmente arruinado por ter introjetado de Deus em suas almas. A experiência do dilúvio vivida por Noé, assustou o povo judeu que, ao invés de se dirigir na direção das águas, correu para o deserto a fim de buscar refúgio em montanhas rochosas.
Foi Frederico Hegel quem ensinou Karl Marx, um judeu, a desprezar seu próprio povo de origem. No texto 'A Questão Judaica', o autor do marxismo, sugere que o problema judaico deve ser solucionado pela dissolução do mesmo nas demais culturas.
Hegel, como se conclui, reina vigoroso em nossos dias, seja nas entranhas dos esquerdismos, eugenismos, antissemitismos, socialismos e neonazismos contemporâneos, seja nas teologias libertadoras, seja nas macabras e pervertidas intenções de nossos magistrados, sobretudo do STF, seja na testa de nossas lideranças políticas. Não há marxista que não seja hegeliano e não há hegeliano que não desembarque, cedo ou tarde, no marxismo.
A gravidade maior, porém, da perversidade hegeliana se encontra no interior de seus princípios metafísicos. Mas para não alongar este artigo, convém esperar por outro que a generosidade do Puggina mo permitirá publicar.
* Santa Maria, 14/08/2025
** O autor, Valdemar Munaro, é professor de Filosofia
Alex Pipkin, PhD
A virtude não se mede pelo aplauso da plateia nem pelo olhar vigilante de terceiros. Ela existe, ou não existe, na solidão das escolhas. O certo é o certo, mesmo quando ninguém está olhando. O errado é o errado, ainda que uma corte inteira, de capa preta, o aplauda de pé.
Nos salões acarpetados de Brasília, o STF sempre foi mestre no jogo de cena. Acostumado ao velho e surrado toma lá, dá cá, mantém um pacto tácito com grandes bancos e corporações: vocês obedecem às regras não escritas do poder, e nós garantimos que a engrenagem continue girando. Um teatro previsível, de papéis fixos, onde todos sabem suas falas e evitam improvisos perigosos.
Mas eis que surge Donald Trump, não como ator secundário, mas como aquele personagem incômodo que invade o palco e muda o rumo da peça. Com a caneta presidencial e a Lei Magnitsky na mão, primeiro, mira Alexandre, o Grande, e logo outros ministros, como Gilmar Mendes e Luiz Roberto Barroso, podem ser atingidos pelas sanções americanas. A medida, ao punir violações de direitos humanos e perseguição política, não apenas lança sombra sobre a reputação dos togados, mas expõe uma vulnerabilidade que o STF sempre fingiu não ter.
Agora, os “guardiões da Constituição” estão esnucados. O roteiro não prevê saída elegante. Se os bancos brasileiros — aqueles mesmos que beijam a mão dos grandes ministros e circulam nos corredores do poder — forem atingidos, restará ao STF revidar. A reciprocidade deixa de ser mera opção: torna-se necessidade. Isso implica ameaçar, ou efetivamente retaliar, bancos e empresas americanas que operam no Brasil.
O paradoxo é evidente: o STF, que tantas vezes moldou o “certo” conforme a conveniência política ou corporativa, agora se vê forçado a agir segundo um princípio que deveria ser imutável — responder a ingerências externas para defender a soberania, não por virtude, mas por sobrevivência.
E aqui, um lembrete incômodo aos senhores de capa preta: vocês podem muito, mas não podem tudo. Há forças que escapam ao alcance de seus votos e liminares. A verdade é uma delas.
Quando a verdade aparece, ela desnuda a vaidade e revela limites. E o terreno sob os pés dos “legisladores” do STF começa a se transformar em areia movediça — instável, traiçoeira, pronta para engolir quem insiste em acreditar que está acima de tudo e de todos.
Como sempre, o tempo se encarrega de mostrar: no fim, não são as togas, nem os palácios, nem as alianças que prevalecem. É a realidade, inevitável e implacável, impondo-se sobre as pretensões humanas.
O certo é o certo. Sempre.
Gilberto Simões Pires
LEI MAGNITSKY
Antes de tudo é importante lembrar -notadamente aos -ANALFABETOS FUNCIONAIS, ou RUDIMENTARES, que a -LEI MAGNITSKY-, APROVADA EM 2012 pelo Congresso dos EUA e devidamente SANCIONADA pelo presidente Barack Obama - do partido DEMOCRATA, tinha como -PROPÓSITO -INICIAL- PUNIR AUTORIDADES RUSSAS responsáveis pela morte do advogado tributarista russo SERGEI MAGNITSKY. Quatro anos depois, em 2016, o Congresso dos EUA PROMULGOU o Global Magnitsky Human Rights Accountability Act, que deu PERMISSÃO AO GOVERNO DOS EUA de -SANCIONAR- FUNCIONÁRIOS DE GOVERNOS ESTRANGEIROS IMPLICADOS EM ABUSOS DE DIREITOS HUMANOS EM QUALQUER PARTE DO MUNDO. Mais: a PUNIÇÃO, de caráter imediato, se dá através do CONGELAMENTO DE ATIVOS e da PROIBIÇÃO DE ENTRAR NOS EUA.
LISTA DA OFAC
De novo: como a LEI MAGNITSKY AUTORIZA sanções contra estrangeiros acusados de graves violações de direitos humanos e corrupção, SEM A NECESSIDADE DE CONDENAÇÃO EM PROCESSO JUDICIAL, o ministro Alexandre de Moraes acabou, com sobradas razões, incluído na LISTA DA OFAC -Office of Foreign Assets Control- órgão do TESOURO DOS EUA, acusado de liderar uma INEGÁVEL -CAMPANHA OPRESSIVA DE CENSURA- E AUTORIZAR PRISÕES ABUSIVAS DE -RÉUS- DA INVASÃO DO CONGRESSO NACIONAL EM, 8 DE JANEIRO DE 2023.
DENTRO DO ESPERADO
Seguindo apenas e tão somente o que está escrito na LEI MAGNITSKY, o TESOURO AMERICANO -SANCIONOU- o superministro com a PROIBIÇÃO DE TRANSAÇÕES COM CIDADÃOS E EMPRESAS AMERICANAS E A EXCLUSÃO DE SISTEMA BANCÁRIO INTERNACIONAL VINCULADO AO DÓLAR. Pronto: dentro do esperado, levando em conta o seu inconfundível MAU CARÁTER, AM reagiu afirmando, com um ar de vitória, NÃO POSSUIR BENS OU INVESTIMENTOS NOS EUA. Ou seja, -cagou e andou- para seus apavorados colegas que, confessadamente, afirmam possuir investimentos em dólar, títulos mobiliários e/ou propriedades imobiliárias em território americano.
EFEITOS DA LEGISLAÇÃO
Altamente preocupados, principalmente porque sabem que estão sob mira do Tesouro dos EUA, e como tal sabem que de uma hora para outra podem figurar na LISTA DA OFAC, o esperneio é enorme. Alguns estão testando os bancos brasileiros para ver quais instituições estariam dispostos a DRIBLAR os efeitos da LEI MAGNISTSKY, alegando, para tanto, que nem mesmo juristas nos Estados Unidos têm clareza sobre todos os efeitos da legislação. Ou seja, os ministros do STF querem para eles tudo aquilo que NÃO PERMITEM -em hipótese alguma-, para todos os brasileiros que LUTAM PELA LIBERDADE.
Dartagnan da Silva Zanela
José Ortega y Gasset, em seu livro "Misión del Bibliotecario", publicado no início do século XX, chamou a atenção para a grande quantidade de livros que inundava o mercado editorial, o que, por sua vez, se tornava um problema para qualquer pessoa que desejasse adentrar o universo do conhecimento.
Também na primeira metade do século XX, Gilberto Freyre, em seu livro "Retalhos de jornais velhos", apontou para esse mesmo fenômeno e lembrou que a maioria absoluta das obras publicadas não trazia nada que realmente merecesse a atenção dos leitores. Aliás, Ortega y Gasset apontava o mesmo em sua reflexão, lembrando que, a seu ver, essa tendência apenas aumentaria com o passar do tempo.
Bem, cá estamos nós, navegando com o barquinho de papel da nossa consciência em meio a esse oceano bravio de informações, sem saber muito bem o que fazer ou por onde começar.
Diante disso, penso que o primeiro ponto que devemos ter claro é que não é bom querermos saber tudo, nem desejarmos estar informados sobre todas as notícias. O que realmente importa é sabermos, com clareza, o que nós realmente queremos e precisamos saber, e não o que os meios de comunicação querem que "saibamos".
Procedendo desse modo, sem querer, estamos a empregar o método de Sherlock Holmes: o procedimento de exclusão daquilo que, no momento, não nos interessa, para centrarmos nossa atenção no que realmente importa para nós. E o que importa não é aquilo que é estridentemente noticiado, mas sim o que nos ajuda a compreender com maior clareza e profundidade as questões que nos inquietam. Se não conseguirmos fazer essa distinção com relativa clareza, francamente, estamos lascados.
Agora, se considerarmos esse critério de orientação, constataremos rapidamente que grande parte do nosso tempo é direcionada para temas e assuntos que nos foram sugeridos de forma sutil pela grande mídia e pelas redes sociais e, por pura distração, passamos a crer, tolamente, que fomos nós que, de forma "crítica", decidimos ponderar essas questões e temas como assuntos de suma importância para nossa vida.
Por fim, Umberto Eco, em "De la estupidez a la locura", nos diz que isso seria uma espécie de "bulimia sem objetivo", como é, aliás, a vida de um modo geral em nossa fatigada sociedade, que não se cansa de chafurdar na lama do autoengano e sair contando vantagem.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "A QUADRATURA DO CÍRCULO VICIOSO", entre outros livros.
C. S. Mourão
Recentemente vi uma postagem de um amigo em redes sociais onde ele brilhantemente desnudava a velha máxima adesista "se não pode vencer seus inimigos, una-se a eles", expondo o que ali sempre se escondeu: um viés diabólico que lentamente se apropria de símbolos caríssimos à humanidade, culminando no "perenialismo" de René Guénon (entre outros) – que, ao fim e ao cabo, é para a filosofia o que a noite é para os gatos: apenas um jeitinho de deixá-los todos pardos. Para sustentar seu contraponto, o inteligentíssimo pastor (sim, esse amigo a que me refiro é um cuidadoso pastor) trazia à esgrima ninguém mais, ninguém menos, que a dupla cristã G. K Chesterton e C. S. Lewis – dos quais sou um devotado, ainda que medíocre, leitor.
A quem não sabe (muito embora todos devêssemos saber) esses dois cavalheiros estão entre os maiores e melhores escritores e pensadores britânicos do século XX (e muito seguramente de toda a história!), amplamente conhecidos por trabalhos literários com abordagens diretas ou indiretas de temática filosófica, religiosa, social e comportamental. Suas obras, fossem elas em prosa ou verso, ficção ou não, ensaios seriíssimos ou bem humoradas anedotas, todas convergiam para um mesmo ponto em comum: Deus!, e o Homem por ele criado. Seja de “Ortodoxia” e “O Homem Eterno”, de Chesterton; a “Cristianismo Puro e Simples” e “A Abolição do Homem”, de Lewis, é possível perceber uma nítida confluência de pensamento (assim como na série de Padre Brown e “O Homem Que Era Quinta-Feira”, de um lado, e “As Crônicas de Nárnia”, do outro). A identidade – ou, melhor dizer, continuidade – é tão grande que se poderia pensar que eles foram amigos, e do tipo que se conheciam pessoalmente (pois assim é que era antigamente). Mas eles não eram. Não porque fossem antipáticos um ao outro, mas, sim, simplesmente por uma breve questão de tempo: Chesterton, nascido em 1874 e morto em 1936, “existiu” antes de Lewis (1898-1963), sobretudo antes da conversão deste último ao cristianismo. De fato, apesar da diferença etária não tão gigante (24 anos é pouco nos dias atuais; mas há mais de cem anos era bastante coisa), o grosso [ou, melhor dizendo, “o fino”] da produção intelectual-literária de Chesterton é do início do século XX, até o final dos anos 20 de então, sendo que Lewis, uma geração mais novo, só começou a despontar no início dos anos 30. Logo, e para a frustração de muitos ansiosos espectadores, por essas coisas do destino –, ops, de Deus! – eles não tiveram amizade. (No entanto, como Deus não escreve errado por qualquer linha que o seja, Lewis era #BFF do último hobbit vivo, Sir Tolkien. Mas isso é fato para outra boa estória, ainda que seja a mesmíssima história...)
Pois a partir disso, desse desencontro, lamentável somente pela minha pequenez, cometi a ousadia, quase herética, de confabular uma cartinha que, talvez, poderia muito bem estar sendo escrita nos dias atuais por Lewis ao mui simpático e bonachão compatriota rotundo. (E claro que não seria, em se tratando deles, de um mero e-mail ou mensagem no direct do “Insta”, mas uma missiva completa, com selo, carimbo e tudo). E ficou mais ou menos assim:
"Oxford, noutro tempo e espaço,
Em um agosto absurdamente líquido:
Meu caro e estimado Gilbert,
Sei bem que as cartas do Paraíso não costumam fazer escala na Terra — mas receio que, para preservar alguma réstia de sanidade, precise infringir uma ou duas leis da eternidade e confessar-te umas tantas perplexidades da hora presente.
Disseste outrora que “o mundo moderno é cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas”. Permita-me ir além: estas virtudes agora, para além de enlouquecidas, se perderam mais que aquele inklink que abusou de hidromel e se engasgou com o old toby Tais virtudes parecem que fumaram maconha (dizem!), tomaram ácido, fundaram ONGs, e vivem pedindo doações via Pix – e isso tudo é fato!, mas não necessariamente nessa ordem...
Gilbert, o Ocidente – esse velho cavalo cansado que outrora cavalgava orgulhoso entre as catedrais, as bibliotecas e os pubs – hoje cambaleia, não por ter perdido a força, mas por ter perdido o sentido. E, pior, sob o pretexto de defender o homem, tenta a todo o momento aboli-lo por completo. Na realidade, hoje tudo é mais importante do que qualquer homem, até um ponto em que o Homem não importa (e eu não sei mais dizer se quem prega isso é homem ou o Q!)...
Lembras da tua Democracia dos Mortos?! Foi enterrada sem velório! Nossos avós foram silenciados por, pretensamente, “terem morrido na década errada” – esse foi o libelo [ainda existe essa palavra?]. E enquanto os heróis de agora morrem de overdose, a tradição, a “votação dos falecidos”, foi substituída pelo princípio do prazer dos vivos, o que nada mais é do que adições de “amigos” no Instagram, curtidas no TikTok e rolagens de Reels.
Nesse ponto tu podes me perguntar por onde anda a saudade e a autoridade milenar da razão, da revelação e do senso comum. E eu só posso responder que, pelo menos da última vez que as vi, a primeira anda de bar em bar, ao passo que a última, juntamente com o Homem [eu já nem sem mais se é com “h” minúsculo, que dizer maiúsculo] foi sumariamente substituída por decisões judiciais muito mais preocupadas com a semântica dos emojis, e elaboradas para virar virar memes [não me peça para explicar isso, caro amigo], do que para fazer verdadeira Justiça. Aliás, o fundamento bem comum agora significa o prazer da minoria – mas não pode ser uma minoria muito pequena, porque aí se chega no indivíduo, e, assim como uma andorinha não faz verão, um imbecil só não ganha eleição [foi o que eu ouvi de um senador (ou terá sido de um padre ou de um uber? Enfim, agora não lembro, caro amigo...)].
E há um novo tipo de tirania, Gilbert: a tirania do sentimentalismo. Disfarçada de compaixão, essa usurpadora reduz a alma humana à sua condição mais estreita — suas inclinações, seus desejos; em verdade, sua mais virílica concupiscência. O homem moderno exige que sua biologia se curve à sua biografia – que é escrita por ele próprio ele próprio, óbvio. O “ser”, não importa! O que importa é tão somente o “querer”. E quanto mais próximo dos genitais é esse sentimento de querer, mais ele é tido por nobre, a ponto de ser, até mesmo, destacado em apresentações formais... E é claro que não pode ser um sentimento comum. Quanto mais extravagante o for, mais lattes ele deixa o curriculum. Não te ofendas, amigo, se fores debater em Cambridge com alguém cujo título de apresentação consista em anunciar estranhas façanhas que gosta de fazer na alcova. Isso é, para eles, uma credencial importante. Acho que aprenderam com os cães, que iniciam relações sempre por um processo rino-anal. Então, apenas sorria de volta, continue caminhando, o cumprimente e, claro, mantenha a devida distância para evitar farejadas grosseiras. E não dê bola, Gilbert, porque a maioria deles tende a não se reproduzir. Eles passarão, tu passarinho. São pessoas apenas com genitais, não possuem peito.
E sobre isso — agora que posso te falar livremente — confesso que aquele título, “O Homem Sem Peito”, no meu livro “A Abolição do Homem”, foi, sim, uma pequena homenagem velada a ti, Gilbert. “Peito”, como sabes, é onde moram as virtudes, as afeições ordenadas, a coragem civilizadora acima de tudo. E “Chester”, esse nome que carrega peito até na etimologia, foi em mim símbolo daquele que lutou com humor e espada contra as sandices do niilismo. Em ti, o peito cristão ainda palpitava. E isso inspirou o meu peito. Gostaria que isso houvesse nos tempos atuais, mas agora eles estão desnudos, ou de cropped, e ali só respira a vaidade, o aliado erudito daquilo que habita a virilha.
É, Gilbert... As quintas-feiras de antes não são mais as suas. Tolkien, nosso mui amigo John – o querido inkling que não era quinta-feira, mas a semana toda! –, ao ver isso tudo, teria dito que “Sauron venceu!”. E não com exércitos, mas com editais de concursos públicos e conferências acadêmicas. A espada não defende mais, só ofende; o cajado apenas sustenta o anacronismo, a velharia; e o anel de poder foi partilhado entre uma pequena elite para a todos governar. Na mão do povo sobrou apenas o cachimbo – e não há mais old toby!, mas somente a erva venenosa. Ah, Gilbert, não tenho mais dúvidas!, estamos diante da completa abolição do homem. E os orcs estão urrando de prazer (e não só do princípio!).
Não há mais como voltar atrás. A lei, já não natural, agora é líquida. O juiz — outrora servo da norma — avocou tanto poder a si que se tornou demiurgo. A justiça, que era apenas cega, agora é careca e – pasme! – cabeluda. “Direitos”, conforme o vai-e-vem virílico das minorias qualificadas, surgem e desaparecem no mesmo instante. Aliás, mais surgem do que desaparecem; e deveres não se criam – ao menos não para os donos da virilha, é claro. Ninguém deve nada, mas todes podem tudo. No final, às vezes até acontece de suceder justiça para uns e outros – mas isso só, é claro, por acidente – ou por acinte (eles dizem).
E o mais triste, meu amigo, é que essa eterna sexta-feira se apresenta com uma face muito redonda, benigna, sorridente e terapêutica. O Inferno descobriu que a melhor forma de vencer os anjos era vestir-se de anjo da empatia – pois o disfarce é ferramenta que vem de baixo. É o “Sextou!”.
Por isso escrevo. Não para lamentar — pois sei que, no fim, como bem escreveste, a cruz voltará a florescer! Quero apenas avisar e registrar, num tom meio cômico e meio desesperado, que, realmente, tua pena era profética, e que tua teologia, com joelhos sujos de chão, agora anda limpinha e com tornozelos depilados à mostra... No final, tenho certeza, venceremos todos, mas somente uns poucos de nós saberemos o quanto nos custou isso tudo.
Saudades de nossas conversas sobre cerveja, paradoxos e encarnação. Quem sabe um dia, num pub celestial (ou infernal, se nos deixarem ingressar), possamos rir juntos das absurdidades destes séculos e brindar com hidromel e old toby o triunfo da verdade. É só marcar!
Do velho companheiro de fé e fantasia,
Clive Staples Lewis
P.S. John já antecipou que não irá no encontro e que não está nem aí para nós, pois – disse – tem mais o que escrever.”
...E não se localizou uma única mancha de lágrima nela.
Caxias do Sul, 07/08/2025.
C. S. Mourão.
Alex Pipkin, PhD
Há líderes que choram em público para disfarçar a secura moral. No dia 5 de agosto de 2025, Lula, entre soluços performáticos, promessas recicladas, demagogia de auditório e os conhecidos assassinatos gramaticais, declarou sem pudor que será "cada vez mais esquerdista e socialista". Foi mais do que um delírio ideológico. É a consagração do cinismo como método.
No Brasil real, o cidadão que acorda cedo e trabalha duro é condenado a financiar o delírio igualitário de um Estado glutão. O imposto, aqui, não é instrumento de justiça, mas punição por ousadia. O trabalho virou penitência. O sucesso, um pecado capital. Em troca, o governo oferece migalhas simbólicas. Claro, um cartão plastificado, uma sigla politicamente conveniente, um discurso redentor, e a promessa de que a bondade estatal salvará o povo da fome que ele mesmo perpetua.
Agora, imagine um país outro. Um Brasil onde o Estado fosse servidor e não senhor. Em que políticas públicas fossem rampas, não jaulas. Onde o pobre fosse tratado não como mascote eleitoral, mas como cidadão com ambições. Em que a liberdade de produzir, empreender e crescer fosse estimulada, e não sabotada por discursos culpados.
Esse Brasil — possível, desejável, adulto — é diariamente abortado pelo Brasil de fato. Um país onde o presidente prega o socialismo para o povo enquanto saboreia, sem culpa, o melhor do capitalismo.
É nauseante ver Lula e sua comitiva, acompanhados da primeira-dama informal com salário formal, desfilarem por hotéis de luxo, tênis de grife e relógios suíços, tudo embalado em narrativa revolucionária. É a estética operária a serviço da mais burguesa das existências. O socialismo, afinal, é sempre para os outros. Já o minibar, esse é sagrado.
O ex-presidente, que não é aqui objeto de beatificação, ao menos dormia em alojamentos de quartel. Já o atual, exige suíte com minibar, vista panorâmica e toalhas de algodão egípcio.
Roberto Campos, esse herege da inteligência nacional, já havia alertado: "O socialismo é o caminho mais longo e mais custoso entre a liberdade e a miséria". E é também, podemos dizer, o atalho preferido de quem deseja parecer virtuoso enquanto desfruta do vício alheio.
Na plateia do poder, ministros togados com biografia marxista oferecem a blindagem jurídica desse espetáculo. Gilmar Mendes sorri entre um aceno à China e outro à elite local, garantindo que o roteiro siga conforme a peça.
A "democracia" com censura, a "liberdade" sob vigilância e "igualdade" com casta.
O povo, este sim, segue fiel ao enredo que lhe foi escrito. A cada novo ciclo de promessas e programas, ele reaparece no palco como figurante do próprio destino, aplaudindo de pé aquele que jura defendê-lo enquanto lhe prende as mãos.
E enquanto Lula chora em público, o povo exaurido aprende a sorrir com os olhos baixos.
Afinal, ser socialista com o dinheiro dos outros, convenhamos... é uma barbada, não é mesmo? Difícil é abrir mão do minibar.